• 3 de junho de 2026

Proposta de tarifa de 25% dos EUA pode deixar a tilápia mais barata para o brasileiro?

Setor monitora taxa de 25% do governo americano, mas especialistas avaliam se medida realmente vai garantir uma tilápia mais barata no mercado

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Entenda como o cenário de exportações molda o preço dos alimentos consumidos no dia a dia dos brasileirosFoto: Magnific/Reprodução/ND Mais

A proposta dos EUA de aplicar uma nova taxa sobre produtos do Brasil gerou dúvidas sobre produtos e também sobre a possibilidade de haver uma tilápia mais barata no mercado nacional.

Apesar da preocupação dos produtores com a barreira comercial, especialistas apontam que a busca por uma tilápia mais barata no país não deve se consolidar apenas com essa mudança vinda de fora.

Dependência do mercado americano e impacto nos preços

O peixe brasileiro mais vendido para o exterior é a tilápia, sendo que os EUA compram quase o total do volume total exportado, com cerca de 90% do volume vendido. Essa “dependência” do mercado americano supera os índices registrados em setores consolidados como a café e a carne, que possuem uma base de compradores mais diversificada.

Apesar dessa forte concentração, as vendas ao exterior respondem por apenas 2,1% de toda a produção nacional de tilápia, conforme dados divulgados pela Secretaria de Comércio Exterior. Com isso, uma eventual retenção do produto não deve resultar em uma gôndola de tilápia mais barata no cenário nacional.

O analista de mercado de tilápia do Cepea/USP (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), Matheus Do Ville Liasch, explicou que o volume exportado, embora estivesse em expansão, continua pequeno frente ao consumo interno. Para o pesquisador Liasch, as exportações não detêm força comercial para alterar os preços de maneira expressiva.

tilápia nadando com outras tilápiasA tilápia brasileira é o peixe mais comprado pelo mercado norte-americanoFoto: Magnific/Reprodução/ND Mais

O presidente da PeixeBR (Associação Brasileira de Piscicultura), Francisco Medeiros, comentou que reduções localizadas podem ocorrer em mercados regionais, mas descartou um reflexo em escala nacional.

Investigação comercial e o histórico de tarifas de Trump

A nova barreira econômica foi proposta após a conclusão de uma investigação iniciada em julho de 2025 sob ordens do presidente Donald Trump, amparada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O relatório norte-americano classifica os atos e políticas do governo do Brasil como “irrazoáveis”, alegando que eles oneram o comércio internacional dos EUA.

Ao contrário de outros alimentos, a tilápia brasileira não foi isenta porque os americanos dispõem de fornecedores competitivos como a China, a Colômbia e a Indonésia, deixando o Brasil na quarta posição do ranking. Além disso, Medeiros relembrou que cerca de 80% do consumo nos EUA foca no filé congelado, enquanto a produção brasileira exporta principalmente o filé fresco.

Em um histórico recente de tensões, duas tarifas impostas por Trump no ano passado acabaram anuladas pela Suprema Corte dos EUA em fevereiro de 2026. As medidas derrubadas envolviam as taxas recíprocas de 10%, anunciadas em abril de 2025, e a sobretaxa de 40% sobre variados itens nacionais, formalizada em carta enviada ao presidente Lula em julho de 2025.

tilápias mais baratasA relação entre o volume de exportação de pescados e a estabilidade de preços no mercado varejista nacionalFoto: Reprodução/ND Mais

Essas barreiras reduziram drasticamente a margem de lucro dos produtores, que absorveram os custos adicionais para segurar clientes. Como reflexo, as exportações brasileiras para a nação norte-americana encolheram 43,7% no segundo semestre de 2025. Embora o Brasil tenha ampliado as vendas para outros países, Liasch ponderou que a abertura de novas praças comerciais é uma estratégia de longo prazo, mantendo o país atrelado aos compradores americanos.

Medeiros avaliou que ainda é cedo para mensurar os impactos globais, sendo necessário observar se concorrentes diretos sofrerão as mesmas sanções. Paralelamente, o presidente da Abipesca (Associação Brasileira das Indústrias de Pescado), Eduardo Lobo, pontuou que o peixe não foi nominalmente citado no texto da investigação da Seção 301.

Comissão aprova proibição da importação de tilápia para proteger produção nacional

A Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 6331/25, que veda totalmente a importação de tilápia no território brasileiro. A proibição estipulada no texto legal engloba desde peixes vivos e alevinos até itens resfriados, congelados, filetados ou processados para alimentação humana e animal.

A medida legislativa visa mitigar riscos sanitários decorrentes da entrada de patógenos estrangeiros, além de blindar a sustentabilidade econômica e socioambiental do setor produtor nacional. O relator da proposta, deputado Luiz Nishimori (PSD-PR), recomendou a aprovação da matéria. “A relevância da cadeia produtiva da tilápia para a aquicultura nacional, além da evidência de riscos concretos, impõe o princípio da precaução”, asseverou Nishimori.

peixes recém pescados em estoqueA busca por novos mercados internacionais, como o Canadá, ajuda a proteger os produtores de peixe brasileirosFoto: Magnific/Reprodução/ND Mais

De acordo com levantamentos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o valor financeiro gerado pela tilapicultura nacional mais do que dobrou entre os anos de 2020 e 2024. Atualmente, o estado do Paraná lidera a atividade, concentrando 36% do volume total do país. O autor da proposta, deputado Dilceu Sperafico (PP-PR), justificou que a atividade se consolidou como uma das cadeias mais organizadas e socialmente importantes do agronegócio nacional.

O texto normativo proíbe o desembaraço aduaneiro, armazenamento e comercialização de lotes importados, impedindo a concessão de novas licenças pelo governo. Infratores ficam sujeitos à apreensão e destruição das cargas, além de multas proporcionais e cassação de alvarás sanitários. O projeto segue para análise conclusiva nas comissões de Desenvolvimento Econômico e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Com informações da Agência Câmara de Notícias.

Peixe BR manifesta preocupação

A Peixe BR acompanha com apreensão a proposta apresentada pelo USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) que visa aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre os produtos brasileiros destinados ao mercado norte-americano. O anúncio ocorreu após o acabar a investigação comercial iniciada em julho de 2025 e passará por etapas de consulta pública antes da validação final do governo dos Estados Unidos.

Mesmo com as discussões em andamento sobre quais setores serão atingidos, a iminência de novas barreiras tributárias espalha forte insegurança nas cadeias exportadoras, ameaçando a competitividade do Brasil em um de seus maiores mercados externos. A entidade garantiu que continuará monitorando os desdobramentos técnicos da proposta.

Fonte: ND Mais

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