Projeções acima da meta refletem pressões externas, incertezas fiscais e cenário eleitoral, com impacto direto sobre preços e juros nos próximos meses
Projeções do mercado já superam os 4% ao anoFoto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
A inflação no Brasil segue pressionada e distante do centro da meta. Dados mais recentes do Banco Central, compilados no Boletim Focus, mostram que as projeções do mercado já superam os 4% ao ano e, em alguns cenários, se aproximam de 5%. O levantamento reúne estimativas de economistas de instituições financeiras e é considerado um termômetro relevante das expectativas econômicas.
Esse movimento ocorre mesmo após um ciclo prolongado de política monetária restritiva conduzido pelo Copom (Comitê de Política Monetária), que elevou os juros para conter a inflação. Ainda assim, as projeções seguem em alta, indicando que fatores adicionais, internos e externos, continuam pressionando os preços e dificultando o trabalho da autoridade monetária.
Na avaliação de especialistas ouvidos pelo ND Mais, o cenário atual combina incertezas fiscais e tensões geopolíticas, criando um ambiente mais desafiador para o controle da inflação nos próximos meses.
Para David Martins, sócio-diretor da Brazil Wealth, as projeções captadas pelo Boletim Focus refletem com precisão o cenário atual do mercado. “As projeções fazem sentido dentro do cenário que o mercado enxerga hoje. O que vemos é uma inflação ainda resiliente, expectativas pressionadas e uma atividade econômica começando a desacelerar de forma mais clara”, afirma. Segundo ele, esse contexto deve prolongar o período de juros elevados, já que a convergência da inflação para a meta continua lenta.
O economista destaca ainda que o ambiente internacional tem papel relevante nesse quadro. “O cenário externo segue trazendo volatilidade, principalmente por conta das tensões geopolíticas e da incerteza sobre os juros nos Estados Unidos. Isso impacta câmbio, fluxo estrangeiro e expectativas para economias emergentes como o Brasil”, explica.
Incerteza sobre juros nos EUA impacta expectativas para economia no Brasil, segundo especialistaFoto: Deny Campos/Arte/ND
Entre os principais vetores de pressão inflacionária, Martins aponta o setor de serviços, o mercado de trabalho ainda aquecido e, principalmente, as incertezas fiscais. “Sempre que existe percepção de aumento de gastos ou dificuldade de controle fiscal, os investidores exigem juros mais altos, o que impacta inflação, câmbio e crescimento econômico”, diz.
Além disso, fatores externos, como a alta do petróleo, também têm peso significativo. O encarecimento da commodity eleva custos de energia, transporte e logística, pressionando toda a cadeia produtiva e chegando ao consumidor final, especialmente nos preços dos alimentos.
Fatores externos, como a alta do petróleo, também impactam inflaçãoFoto: Freepik/ND Mais
Essa leitura é reforçada por Rafael Pastorello, portfolio manager do Banco Sofisa, que aponta uma deterioração relevante das expectativas inflacionárias, já acima do teto da meta definido pelo Conselho Monetário Nacional. De acordo com ele, o principal fator por trás dessa piora está no cenário internacional: “Isso não decorre de pressões internas de demanda, mas reflete primordialmente o aumento da percepção de risco inflacionário associado ao acirramento do conflito no Oriente Médio.”
Pastorello ressalta que o ambiente geopolítico se tornou o principal vetor de volatilidade global. “Os episódios recentes de tensão militar elevaram de forma significativa o nível de incerteza global, reduzindo o apetite por ativos de risco e enfraquecendo o desempenho da renda variável. Ao mesmo tempo, esse ambiente adiciona ruído relevante à leitura sobre a continuidade e o ritmo do processo de flexibilização monetária, tanto no Brasil quanto no exterior”, diz.
Especialistas analisam impacto direto do conflito no Oriente Médio sobre a inflaçãoFoto: Canva/ND Mais
Essa avaliação converge com a análise de Ricardo Martins, economista-chefe da Planner Investimentos, que chama atenção para o impacto direto do conflito internacional sobre a inflação. “Nada como uma guerra no coração da produção de petróleo para desnortear todas as políticas monetárias do mundo. O conflito no Oriente Médio vem contaminando as cadeias produtivas e não há política monetária que resolva”, afirma. Segundo o especialista, a manutenção do petróleo em patamares elevados pode levar a inflação global a níveis preocupantes.
No campo doméstico, programas econômicos do governo também entram no radar do mercado. Iniciativas como o Desenrola 2.0, voltadas à renegociação de dívidas, têm efeitos mistos sobre a economia.
Programa Desenrola é voltado à renegociação de dívidas e também impacta inflaçãoFoto: Reprodução/ND Mais
Para David Martins, o programa pode gerar estímulos pontuais, mas levanta preocupações fiscais. “Pode ter um efeito positivo sobre consumo e renegociação de dívidas, ajudando famílias, mas o mercado acompanha de perto o custo fiscal dessas iniciativas e o impacto sobre o endividamento público”, afirma. Ele ressalta que políticas de estímulo têm efeito limitado se não houver previsibilidade fiscal. “O investidor hoje continua muito sensível à trajetória da dívida pública brasileira.”
Na mesma linha, Rafael Pastorello avalia que o programa tem alcance restrito no longo prazo. “A iniciativa tende a gerar um alívio pontual sobre a inadimplência e algum estímulo marginal ao consumo, sem enfrentar o problema estrutural do elevado endividamento das famílias”, diz. De acordo com ele, esse tipo de política exige equilíbrio entre estímulo econômico e sustentabilidade fiscal.
Ricardo Martins também vê pontos benéficos, mas com ressalvas. “O Desenrola 2.0 traz uma questão positiva, que é a troca de dívida por recursos do FGTS. O consumidor endividado vai pensar melhor, pois está pagando dívida, mas abrindo mão de poupança. Os efeitos são uma recuperação no consumo, de até 0,3% do PIB”, afirma. Ele destaca, porém, a importância de educação financeira para ampliar os benefícios do programa.
Devedores com renda de até dois salários mínimos podem negociar com o DesenrolaFoto: Reprodução/ND Mais
Outro fator que tende a influenciar as expectativas econômicas é o cenário eleitoral. À medida que o calendário político avança, cresce a sensibilidade do mercado às sinalizações de política fiscal e econômica.
Para David Martins, esse impacto já começa a aparecer. “O cenário eleitoral começa a ganhar peso porque o mercado tenta antecipar possíveis mudanças na condução fiscal. Em períodos pré-eleitorais, normalmente há aumento de volatilidade, principalmente no câmbio e nos juros futuros”, afirma.
Em períodos pré-eleitorais, normalmente há aumento de volatilidade, diz especialistaFoto: Edilson Rodrigues/Agência Senado
Pastorello acrescenta que esse efeito deve se intensificar ao longo do ano, quando houver o registro oficial das candidaturas. “A partir desse momento, os resultados das pesquisas tendem a exercer influência mais direta sobre o humor dos mercados, elevando a volatilidade no curto prazo até que haja maior clareza quanto ao cenário político e às diretrizes econômicas em disputa”, explica.
Diante desse cenário, os especialistas concordam que o principal fator de melhora ou piora da inflação nos próximos meses estará ligado ao ambiente externo. Para Pastorello, uma eventual redução das tensões geopolíticas poderia trazer alívio imediato: “Em um ambiente de descompressão dos riscos e de construção de acordos mais duradouros, o impacto tende a ser imediato, com melhora do sentimento, compressão dos prêmios de risco e alívio nos preços dos ativos.”
Por outro lado, a continuidade dos conflitos pode agravar a inflação e exigir respostas mais duras da política monetária. “Caso os conflitos se estendam, as preocupações inflacionárias tendem a ganhar tração, exigindo reprecificações mais profundas e possivelmente ajustes de rota, ou mesmo pivôs, por parte das autoridades monetárias, cenário que pode provocar correções mais intensas nos mercados”, conclui.
Fonte: ND Mais