Relação entre Brasil e Venezuela passa por transformações ao longo das últimas três décadas e ganha novos formatos devido à crise migratória
Relação entre Brasil e Venezuela vem se transformando ao longo das últimas décadasFoto: Paulo Pinto/Agência Brasil/ND
Com um histórico amistoso e diplomático quando o assunto são as relações com países aliados, o Brasil ocupa um papel importante na mediação de conflitos na América Latina e no mundo. No caso da relação entre Brasil e Venezuela, especialistas destacam que o acirramento de tensões devido à gestão de Nicolás Maduro modificara o papel brasileiro na gestão de conflitos com o país vizinho.
Segundo o estudo “Brasil e Venezuela: evolução das relações bilaterais e implicações da crise venezuelana para a inserção regional brasileira (1999-2021)”, publicado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em 2022, o fato de o Brasil ter adotado um tom mais crítico à Venezuela após a morte de Hugo Chávez, em 2013, fez com que o país perdesse espaço na mediação de crises.
A publicação do Ipea aponta que essa postura fez com que potências extrarregionais, como China, Rússia e Estados Unidos, países médios extrarregionais (Turquia, Irã) e regionais (Colômbia, Peru) aumentassem a sua presença relativa na Venezuela.
Para José Alves Freitas Neto, professor no Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas, a postura do Brasil de defender a neutralidade em grandes conflitos é algo que ameniza e preserva a imagem do país como “equilibrado, que não interfere nas relações internas dos vizinhos e de outras partes do mundo”. Porém, a conduta limita a influência do país nos assuntos geopolíticos da nação vizinha.
Fatores como o apoio à suspensão da Venezuela no Mercosul, o não reconhecimento formal do resultado das eleições do país em 2024 e o aumento de críticas ao regime de Maduro dificultaram a posição do Brasil em se firmar como um negociador privilegiado na crise. Manter comércio com as grandes economias, como Estados Unidos e a China, dá interlocução com as duas maiores potências do mundo, mas penaliza o poder diplomático brasileiro nos conflitos regionais.
“O Brasil tem uma figura simbólica nesse contexto da Venezuela, porque vai defender sempre a unidade da América Latina e a soberania, mas não tem nenhum poder de força além desse exercício retórico, considerando que não vai produzir uma alteração do cenário político já desenhado ali”, comenta Freitas Neto.
A publicação do Ipea destaca que a exceção à perda de influência da diplomacia brasileira na Venezuela se dá no espaço de fronteira, que recebe cerca de 250 venezuelanos diariamente. Os pesquisadores destacam que a Operação Acolhida, responsável pela interiorização dos migrantes venezuelanos do país, tem mostrado resultados mais satisfatórios na inserção deste fluxo migratório em programas sociais e serviços públicos do que em outros países da região.
Em 2023, crianças da etnia Warao brincam no abrigo desativado pela Operação Acolhida, mas que continua ocupado pelos indígenas venezuelanos. Brasil tem mais de 580 mil venezuelanos vivendo no país.Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Até novembro de 2025, o país acolheu cerca de 582 mil venezuelanos, que entraram no Brasil especialmente por Roraima. O crescimento populacional evidencia problemas de estrutura, já que Roraima é um dos menores estados com a menor população dentro do país e enfrenta desafios para acolher adequadamente o enorme fluxo migratório da última década.
“Fora as questões políticas continentais na América Latina, a preocupação do Brasil com a Venezuela também passa por uma questão humanitária. Para além da vida política e dos discursos relacionados ao petróleo, você tem dentro de uma crise política e diplomática impactos na vida das pessoas que buscam a sua sobrevivência”, finaliza Freitas Neto.
Fonte: ND Mais