• 22 de julho de 2026

Tarifaço coloca São Paulo e Santa Catarina no centro dos impactos; veja os riscos para empresas e empregos

Especialistas apontam que a incerteza já afeta investimentos e contratos em polos industriais e do agronegócio de São Paulo e de Santa Catarina

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Tarifaço no interior de SP: medida atinge diferentes setores da indústria e do agronegócioFoto: Reprodução/ND Mais

A nova tarifa de 50% sobre uma série de produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos entrou em vigor nesta quarta-feira (22), após ter sido anunciada pelo presidente norte-americano Donald Trump. A medida atinge diferentes segmentos da indústria e do agronegócio, embora alguns itens estratégicos, como suco de laranja, café e celulose, tenham ficado de fora da lista.

A preocupação do governo e do setor produtivo é que o aumento dos custos reduza a competitividade dos produtos brasileiros no mercado americano, provoque queda nas exportações e afete empregos e investimentos nas regiões mais dependentes desse comércio.

O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) afirma que o interior paulista deve ser uma das regiões mais afetadas pelo tarifaço. A avaliação tem como base a forte presença de indústrias exportadoras e do agronegócio em cidades que dependem do mercado americano.

Interior de SP preocupa, mas SC também sente o peso do tarifaço

Segundo especialistas ouvidos pelo ND Mais, a avaliação encontra respaldo parcial nos dados disponíveis. Embora São Paulo seja o estado com maior volume financeiro atingido pelas novas tarifas, outros estados também apresentam elevada exposição proporcional às exportações para os EUA.

“O levantamento da ApexBrasil mostra que São Paulo concentra sozinho 41,6% do valor total afetado pelo tarifaço, cerca de US$ 3 bilhões dos US$ 7,4 bilhões em exportações sobretaxadas, o equivalente a 20% de tudo que o estado vende aos EUA”, afirma Dilson Higasi Sales, sócio fundador do Higasi Sales Advogados.

O especialista destaca que os setores mais atingidos possuem forte concentração no interior de SP, mas faz uma ressalva: “Isso coloca São Paulo, em valor absoluto, como o Estado com maior exposição financeira do país. Os setores mais atingidos, como etanol e máquinas agrícolas, têm forte presença justamente em polos do interior paulista, o que sustenta a preocupação específica com essa região.”

“Importante destacar que Santa Catarina também está entre os estados mais expostos, e em proporção ainda maior. Em SC, 68% das exportações do estado para os EUA foram atingidas pela nova tarifa, uma fatia superior à de São Paulo. Juntos, os dois Estados concentram 52% de todo o impacto nacional do tarifaço”, explica.

Na avaliação do advogado Fábio Saraiva, presidente da Conaje (Confederação Nacional de Jovens Empresários), ainda é cedo para afirmar que o interior paulista será a região mais prejudicada do país, embora esteja entre as mais vulneráveis.

“Neste primeiro momento, o impacto aparece principalmente na cautela dos empresários, que estão revendo investimentos, contratos e planos de expansão. A dimensão do prejuízo dependerá da duração das medidas e da capacidade das empresas de encontrar novos mercados”, afirma.

Tarifaço no interior de SP: quais setores podem ser mais afetados?

Entre os segmentos mais expostos estão atividades ligadas à indústria e ao agronegócio exportador, especialmente aquelas com forte presença em municípios do interior. “O etanol concentra boa parte da exposição, entrou na lista de produtos sobretaxados e tem produção fortemente presente nos polos sucroalcooleiros do interior, região de Ribeirão Preto, Piracicaba e Araraquara”, detalha Dilson Higasi Sales.

De acordo com ele, máquinas agrícolas seguem no mesmo caminho, com polos industriais importantes em cidades como Piracicaba e Sertãozinho também atingidos pela nova regra.

Máquinas agrícolas estão entre os segmentos mais expostos Foto: Divulgação/Freepik/NDMáquinas agrícolas estão entre os segmentos mais expostos Foto: Divulgação/Freepik/ND

“O papel entrou na lista também, afetando fabricantes espalhados pelo interior, ainda que a celulose, insumo de boa parte dessa cadeia, tenha ficado isenta, o que suaviza parte do golpe. Suco de laranja e café, produtos importantes da pauta paulista, ficaram fora da tarifa. Então o impacto sobre o agronegócio do estado é mais pontual do que amplo, concentrado nesses elos específicos da cadeia.”

Fábio Saraiva acrescenta que outros segmentos também podem sentir os efeitos das tarifas, como aqueles que vendem diretamente para o exterior, incluindo alimentos processados, produtos químicos, móveis e metalurgia.

“A preocupação, porém, não se limita às grandes exportadoras. Ao redor delas existe uma rede de pequenas e médias empresas que fornece transporte, manutenção, embalagens, tecnologia, serviços e insumos. Quando uma indústria reduz a produção ou adia investimentos, o impacto se espalha rapidamente por essa cadeia”, ressalta Saraiva.

“O debate costuma focar só no exportador direto, mas uma usina de etanol ou um fabricante de máquina agrícola que reduz produção por perda de mercado americano compra menos insumo, contrata menos serviço terceirizado e reduz encomenda de peças e componentes regionais”, complementa Dilson Higasi Sales.

“Isso chega a fornecedores locais de médio e pequeno porte que nunca exportaram um contêiner na vida, mas vivem de vender para quem exporta, e esse efeito indireto costuma pesar tanto quanto o impacto direto no emprego regional, às vezes mais, só que é mais difícil de enxergar nos números”, diz.

Preocupação com o tarifaço não se limita às grandes exportadoras, destaca especialistaFoto: Reprodução/ND MaisPreocupação com o tarifaço não se limita às grandes exportadoras, destaca especialistaFoto: Reprodução/ND Mais

Fábio Saraiva faz avaliação semelhante: “Se essa indústria receber menos pedidos, renegociar contratos ou reduzir a produção, os fornecedores locais também perdem receita. Com menos dinheiro circulando, o impacto pode chegar ao comércio, aos serviços locais e à geração de empregos nos municípios.”

Insegurança já afeta decisões das empresas

Embora os efeitos econômicos mais concretos ainda devam aparecer nas próximas semanas, os especialistas afirmam que a incerteza já influencia o comportamento das empresas.

“O impacto concreto, de fato, já começa nesta quarta com a entrada em vigor da tarifa, mas leva algumas semanas para aparecer nos números de emprego e produção, isso é natural em qualquer choque tarifário. O que já é concreto agora é a paralisia de decisão”, aponta Sales.

De acordo com ele, a insegurança é o efeito mais generalizado neste primeiro momento e o mais fácil de constatar em conversa com qualquer empresário do setor afetado. “À medida que a tarifa realmente começar a operar e os pedidos começarem a cair ou os contratos começarem a ser cancelados, o efeito concreto vai se sobrepor à insegurança. Mas hoje, a resposta mais honesta é que estamos na fase em que a incerteza pesa tanto quanto, ou mais, do que o prejuízo já realizado.”

Fábio Saraiva também avalia que o principal impacto ainda é o clima de cautela. “Sem saber quanto tempo as tarifas vão durar e como o mercado vai reagir, muitos empresários adiam contratações, investimentos e projetos de expansão. Alguns setores já enfrentam revisão de preços e renegociação de contratos, mas o cenário ainda é de cautela. A insegurança, por si só, já representa um custo para a atividade econômica”, conclui.

Fonte: ND Mais

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