O ex-juiz da Lava-Jato, que anuncia sua filiação ao Podemos na quarta 10, elege Bolsonaro como o principal adversário
Desde que deixou o governo Bolsonaro, em abril de 2020, a possibilidade de Sergio Moro disputar a próxima eleição presidencial sempre esteve no radar. O ex-juiz, no entanto, desconversava quando ousavam tocar no assunto. Certa vez, ainda como ministro da Justiça, alguém perguntou qual era a possibilidade de ele abraçar a carreira política. “Off do off?”, indagou, lançando mão de um jargão usado por quem pretende passar uma informação relevante de maneira reservada. Pode até ser que, naquele instante, Moro tenha pensado em confidenciar seus planos mais secretos. Mas, se foi isso, desistiu rápido: “Essa eu vou ficar devendo”, disse. Ou seja, não revelou absolutamente nada. Estilo de quem ainda se prende a determinados formalismos típicos da magistratura ou simplesmente uma maneira de escapar de um tema espinhoso? Provavelmente as duas coisas. Hoje, se questionado de novo, a resposta continuará sendo evasiva. A decisão, porém, está tomada.
Moro pretende se candidatar a presidente da República no ano que vem. Ele já comunicou isso aos líderes do Podemos, está montando equipe, tem o esboço do slogan que pretende adotar na campanha, rascunha propostas de governo, autorizou conversas sobre alianças, reúne-se com empresários e economistas e escolheu até quem será seu principal adversário no primeiro turno: o presidente Jair Bolsonaro. Para o ex-ministro, o confronto com o ex-chefe é inevitável. “Quero apresentar um projeto para a reconstrução do país”, disse ele na última terça-feira, antes de desembarcar em Brasília, onde acertou os últimos preparativos para o anúncio oficial de sua pré-candidatura, marcado para acontecer na próxima quarta-feira, 10, no evento da filiação dele ao Podemos. O partido quer transformar a solenidade num mega-acontecimento político. A onze meses das eleições, Moro será o 14º postulante a anunciar a intenção de concorrer em 2022 — mas o único, por enquanto, com possibilidade de alterar o cenário de polarização entre Bolsonaro e o ex-presidente Lula.

As pesquisas mostram uma ampla vantagem de Lula e Jair Bolsonaro. As mesmas sondagens revelam, no entanto, que há espaço de sobra para a construção de uma candidatura competitiva da terceira via, já que uma fatia de 25% a 30% do eleitorado não quer nem a vitória do petista nem a do atual presidente. Até aqui, os nomes testados para romper a polarização não aproveitaram essa janela. O ex-ministro Ciro Gomes é o único que atinge dois dígitos de intenções de voto, mas, devido ao seu temperamento oscilante, nunca passou disso nas eleições anteriores (na semana passada, em mais um arroubo, chegou a suspender sua pré-candidatura). Na largada, a potencial candidatura de Moro nasce empatada com a de Ciro na terceira posição, uma condição inicial mais favorável do que a dos demais postulantes, a maioria deles com menos de 5%. O desafio do ex-juiz será convencer o eleitor de que ele é o único que reúne condições de fazer o que nenhum outro fez até agora: atrair aqueles que não querem nem Lula nem Bolsonaro. A estratégia inicial para alcançar esse objetivo já foi definida pela equipe de Moro.

No rascunho do discurso redigido para a solenidade de filiação, os assessores do ex-ministro sugeriram que ele incorporasse um dos motes de sua futura campanha: “O Brasil não pode voltar ao passado”. A mensagem tem o ex-presidente Lula como destinatário direto, mas, de certa forma, também mira Jair Bolsonaro, com quem ele imagina que disputará a segunda vaga para o segundo turno, já que a primeira estaria assegurada, de acordo com ele, ao candidato petista. “Moro será uma opção de respeito e união nacional, buscará romper a polarização e trazer o Brasil de volta para o caminho da convivência entre as pessoas e as instituições”, diz o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, também ex-ministro do governo Bolsonaro e agora um dos conselheiros do ex-juiz.

Ao contrário de boa parte dos pré-candidatos que pretendem representar a terceira via na próxima eleição, Sergio Moro já é conhecido nacionalmente, fruto de sua atuação à frente da Operação Lava-Jato. A questão é que esse “trunfo” hoje mais atrapalha do que ajuda. Segundo pesquisas recentes, ele ostenta um alto nível de rejeição, o que representa, por enquanto, um dos principais obstáculos ao projeto. Eleitores da esquerda repudiam Moro por entender que ele atuou de maneira parcial como juiz. Já o núcleo duro de apoio a Bolsonaro considera o ex-ministro um traidor porque ele deixou o governo acusando o antigo chefe de interferir de forma indevida na Polícia Federal.
Na última quarta-feira, 3, o potencial candidato teve um pequeno exemplo do que tende a ser rotina a partir de agora. Ao desembarcar no aeroporto de Brasília, ele foi hostilizado por manifestantes ligados a sindicatos controlados pelo PT. “Juiz ladrão, juiz vendido. Você é um lixo”, gritaram os mais exaltados. Moro não esboçou reação. O desafio dele será não apenas resistir aos ataques como elaborar uma forma de usá-los como vantagem. Entusiastas de sua candidatura costumam dizer que petistas e bolsonaristas, ao fustigá-lo, facilitarão o trabalho para conquistar os eleitores que não querem nem a vitória de Lula nem a de Bolsonaro. Há, porém, vários problemas nesse raciocínio. Entre eles, o fato de estar calcado apenas no ódio a este ou aquele candidato, enquanto as pesquisas mostram que a maioria do eleitorado, justamente a turma do centro, está preocupada com o futuro — e mais precisamente com temas como inflação e desemprego, com os quais Moro não tem muita familiaridade.AdChoicesPUBLICIDADE
Ao contrário do que aconteceu em 2018, o consenso entre os especialistas é de que a questão econômica vai dominar o debate político. Não à toa, outros presidenciáveis de centro se dedicam há meses a tratar do tema e já têm gente grande do PIB trabalhando por eles e por seus respectivos programas econômicos. O ex-juiz, até aqui, jamais falou publicamente sobre suas ideias nessa área. Nos bastidores, ele se define como liberal e diz defender as reformas estruturais. Para se aprimorar nesses temas, Moro tem conversado com economistas de peso, como Persio Arida e Affonso Pastore, ambos ex-presidentes do Banco Central. O objetivo é consolidar, antes do fim do ano, algumas propostas que considera fundamentais, como, por exemplo, um amplo programa de privatização de áreas que não estejam ligadas à educação, saúde e segurança pública. É um caminho para vencer a desconfiança do setor empresarial, que ainda enxerga no potencial candidato os traços do juiz implacável que destruiu várias empresas de grande porte.
De maneira geral, a classe política também rejeita o ex-juiz, acusado de criminalizar a atividade partidária. A maioria das legendas já tem planos para 2022 — e eles não passam por uma composição com o Podemos. Apesar de aparecer com menos intenções de voto do que Moro nas pesquisas, presidenciáveis como Eduardo Leite (PSDB) e Rodrigo Pacheco (PSD) têm mais estrutura para fazer campanha e divulgar suas ideias. Além disso, enfrentam uma rejeição bem menor — entre outros motivos, porque são desconhecidos do grande público. Ou seja: além de competir pelos votos à direita com Bolsonaro, o ex-juiz terá de enfrentar uma dura concorrência dentro da terceira via, numa disputa em que ele, levando em consideração as condições atuais, iniciará em desvantagem.

“O discurso de Moro não é capaz de empolgar as massas. Ele provavelmente vai ter de encampar a velha pregação antipolítica, de que combateu a corrupção e quer mudar o sistema”, prevê o cientista político Renato Perissinotto, da Universidade Federal do Paraná. Pesquisas qualitativas do Podemos mostram que o ex-juiz nem precisa explorar os resultados da Lava-Jato como investimento eleitoral. Ele necessita, na verdade, é se afastar da imagem de homem de uma nota só e tornar públicas propostas econômicas para enfrentar a crise. Evidentemente, não será uma tarefa fácil. A inexperiência política e a aversão que desperta em determinados setores são entraves reais. Outros obstáculos são a sisudez e a falta de carisma e de boa oratória. Nesse campo pessoal seus assessores dizem que a solução encontrada será explorar a imagem carrancuda de Moro como sinônimo de seriedade. Já a falta de jogo de cintura e a retórica rebuscada estão sendo trabalhadas em longas sessões de fonoaudiologia e de media training.
Driblar as dificuldades no campo político será um trabalho ainda mais complicado. O ex-juiz comentou recentemente que gostaria de ter a senadora Simone Tebet (MDB-MS) como vice na sua chapa, mas no MDB há poucos (quase ninguém) que defendem essa aliança. Na verdade, a terceira via está bastante fragmentada e, evidentemente, cada um joga por si. Até aqui, Sergio Moro, o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM) e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB) — todos presidenciáveis —, continuam jurando que existe um acordo entre eles para que os dois com pior desempenho nas pesquisas abram mão da disputa em favor daquele que estiver mais bem colocado. Em um encontro recente, Doria disse ao ex-juiz que ele seria imbatível caso optasse por disputar uma vaga no Senado. A hipótese, segundo Moro, nunca foi considerada, mas, de repente, começou a aparecer com frequência nos noticiários. Os aliados do ex-juiz viram no boato uma tentativa de sabotagem de sua candidatura presidencial e tiveram certeza de que era mesmo quando identificaram o autor da futrica: o próprio Doria. É muito fácil dizer que todos caminharão juntos lá na frente. A complexidade é definir quem abre mão de liderar o comboio.
Fonte: Veja