Entre os setores que mais tiveram prejuízo em 2025, nos três primeiros trimestres do ano, o destaque foi o de eletricidade e gás, água, esgoto e gestão de resíduos
O setor de eletricidade está entre os setores que mais tiveram prejuízo em 2025Foto: Reprodução/Canva/ND Mais
A economia brasileira mostrou avanço ao longo de 2025 e, no terceiro trimestre, o PIB (Produto Interno Bruto) alcançou R$ 3,2 trilhões, impulsionado pelo desempenho de setores-chave. No entanto, ao decorrer do ano, houve uma desaceleração nos resultados, já que no segundo trimestre o crescimento foi de 0,3% e, no terceiro, de 0,1%.
Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que algumas áreas registraram retração no período. Entre os setores que mais tiveram prejuízo em 2025, nos três primeiros trimestres do ano, o destaque foi o de eletricidade e gás, água, esgoto e gestão de resíduos, que recuou 0,8% dentro do conjunto das indústrias.
De acordo com o economista e mestre em finanças pela University of Miami, João Victor Silva, apesar do crescimento econômico do Brasil em 2025, os dados mostram que os números estão estagnando ao longo dos trimestres, principalmente no setor de serviços. Para se ter uma ideia, o setor de serviços cresceu 1% no primeiro trimestre; 0,3% no segundo e 01,% no terceiro.
Ele explica que um dos principais fatores para a desaceleração da economia é a persistência dos juros em um patamar elevado no país. Hoje, a taxa Selic — a taxa básica de juros da economia brasileira — está em 15%, o maior patamar desde julho de 2006 (15,25%). Já a taxa de juros real — taxa Selic menos a inflação — em 10%.
Com isso, segundo João, “quanto mais a inflação baixa, mais contracionista é a política do Banco Central, porque os juros reais acabam subindo ainda mais, o que dá um efeito bem forte na economia”.
Outro fator que influencia na estagnação da economia ao longo dos trimestres é o alto endividamento das famílias. O mestre em finanças explica que o nível está batendo recorde e isso influencia diretamente nos dados de consumo, que estão cada vez mais fracos.
“Essa questão do forte endividamento associado a uma taxa de juros elevada acaba contraindo a economia. A gente percebe que há muitas empresas entrando em recuperação judicial com problemas financeiros, porque também aumentaram o seu endividamento e não conseguem fechar a conta com juros tão elevados” — relata João Silva.
Vale frisar que o resultado do último trimestre de 2025, divulgado pelo IBGE por meio do Sistema de Contas Nacionais Trimestrais, ficará disponível a partir do dia 3 de março de 2026.
Apesar do recuo de 0,8% no setor, a economista e CEO do Instituto Brasileiro de Finanças, Laura Pacheco, explica que, muitas vezes, quando se vê alterações abaixo de 1% de um ano para o outro, pode-se interpretar como uma estabilidade no setor.
A especialista frisa que a grande influência para o setor é a questão climática:
“No Brasil, a gente tem a nossa energia cotada de acordo com o nível de água nos reservatórios das geradoras hidrelétricas. Quando não há água suficiente, é preciso acionar as termelétricas. Como gerar energia com termelétrica é mais caro a gente entra em bandeira tarifária vermelha, que é mais cara. Isso pode ter impulsionado ali uma redução do consumo”.
A analista das Contas Trimestrais do IBGE, Claudia Dionísio, também explica à Agência Brasil que um dos principais fatores que levam à desaceleração é o patamar alto dos juros, que comprometem diversas atividades da economia.
Ela avalia que a indústria de transformação — que transforma matéria-prima em produto final ou intermediário — é um dos setores que mais tiveram prejuízo em 2025, já que é altamente sensível às taxas de juros.
A FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) ainda analisa que, no caso do PIB da indústria de transformação, após o avanço de 3,9% em 2024, estima-se um crescimento mais fraco, de 0,3% em 2025, seguido por uma retração de 1,0% em 2026.
O setor teve retração no primeiro trimestre, de 1,1% e no segundo trimestre, de 0,4%. No terceiro trimestre de 2025, o comportamento mudou e teve um aumento de 0,3%.
Esse aumento, no entanto, segundo a FIESP, não reflete uma melhora real na atividade, justamente porque os trimestres anteriores foram muito fracos.
Apesar do baixo desempenho na indústria de transformação, de acordo com os dados do IBGE, no terceiro trimestre de 2025 a indústria em geral teve o melhor resultado entre os três principais setores (agronegócio, indústria e serviços). O crescimento foi de 0,8%. Ao longo dos três trimestres, cresceu 1,7% e foi a terceira entre os setores que mais cresceram em 2025.
Cabe analisar que, segundo a Agência Brasil, o crescimento da indústria se encontra 3,4% abaixo do nível mais alto já registrado, atingido no terceiro trimestre de 2013.
Segundo dados da FGV (Fundação Getúlio Vargas), divulgados pela FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), o índice de confiança da indústria apresentou expressiva piora ao longo de 2025.
Entre julho e setembro, o índice acumulou queda de 6,3 pontos, com piora tanto da percepção dos empresários acerca da situação atual quanto das expectativas para os próximos meses.
Uma análise interessante é direcionada para o Comércio, que teve aumento de 0,4% no primeiro trimestre, de 0,1% no segundo e, novamente, de 0,4% no terceiro trimestre.
Segundo a FIESP, os dados do comércio varejista ampliado ao longo do ano mostram um descompasso entre os segmentos mais dependentes de crédito e aqueles impulsionados principalmente pela renda das famílias.
As atividades que precisam de financiamento, como, por exemplo, a venda de veículos, eletrodomésticos e bens duráveis, tiveram desempenho mais fraco. Já os setores que respondem mais diretamente ao aumento de renda mantiveram resultados melhores.
A análise da Federação mostra que a política monetária restritiva, com juros elevados, tem impacto maior justamente sobre os segmentos mais sensíveis ao crédito.
A Selic, que está em 15% ao ano atualmente, é decidida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. A instituição defende o nível elevado como forma de combater inflação, acumulada em 4,68% em 12 meses.
De acordo com dados da Agência Brasil, desde setembro de 2024 a inflação está acima do teto da meta do governo, que vai até 4,5%.
Ao esfriar a economia, a taxa de juros alta tende a diminuir a procura por bens e serviços, de forma a frear a alta de preços. O efeito colateral é o obstáculo à geração de emprego e ao crescimento econômico.
De acordo com o boletim Focus do dia 8 de dezembro, pesquisa divulgada semanalmente pelo Banco Central com as expectativas para os principais indicadores econômicos, a projeção para o PIB de 2026 é de aumento de 1,8%.
Conforme a divulgação da Agência Brasil do mesmo boletim, para 2027 e 2028 o mercado financeiro estima expansão do PIB em 1,84% e 2%, respectivamente.
Já segundo a estimativa da FIESP, a expectativa é de uma alta de 1,9% para o PIB, mas “as medidas de estímulo à demanda anunciadas pelo governo federal nos últimos meses trazem um viés de alta para a projeção do crescimento em 2026”.
A Federação afirma que a soma de todas as medidas anunciadas pelo governo até o momento pode chegar a R$ 212 bilhões, o que corresponde a cerca de 1,6% do PIB.
Além desse conjunto de medidas, a trajetória esperada de continuidade de crescimento do investimento público, principalmente por parte dos estados no contexto de ano eleitoral, deve contribuir para a expansão econômica no ano que vem.
Devido a todos estes fatores, a economista Laura Pacheco avalia que 2026 é um ano “divisor de águas” para o país.
“Um outro ponto que pode refletir é o fim do mandato do atual presidente do Banco Central Americano. Até porque nas decisões de taxa de juros aqui, por exemplo, se olha muito para a economia americana para tomar decisão, porque os títulos do tesouro americano são considerados uma referência para a gente poder também balizar os níveis das nossas taxas de juros”.
De acordo com o governo brasileiro, o PIB é o valor de todos os bens e serviços finais produzidos em um país em um determinado período. Funciona como “termômetro” da atividade econômica ao indicar se a economia está crescendo ou encolhendo.
O cálculo soma a produção de todos os setores, como indústria, agricultura e serviços, e exclui bens intermediários para evitar dupla contagem. Por exemplo, no cálculo do valor do pão, não se conta o valor do trigo e da farinha, já embutidos no preço do pão.
O PIB também pode ser calculado pela ótica da demanda, somando o consumo das famílias, o investimento das empresas, os gastos do governo e as exportações.
Fonte: ND Mais