- 31 de outubro de 2026
Pesquisador apresenta em Caçador dados sociais do Contestado
Na Semana do Contestado, geógrafo apresentou números sobre oportunidades, IDH e impacto ambiental em 26 municípios da região.
A programação da Semana do Contestado levou ao plenário da Câmara Municipal de Caçador, na noite de quinta-feira (29), a palestra “_O Reverso do Progresso no Contestado_”. Na apresentação, o geógrafo e pesquisador Nilson Cesar Fraga revelou dados de um levantamento próprio sobre qualidade de vida, oportunidades e meio ambiente em 26 municípios situados entre Santa Catarina e Paraná. Os números revelam um contraste marcante: apesar da alta geração de riqueza econômica, parcelas expressivas da população local seguem sem acesso a serviços fundamentais e a postos de trabalho qualificados.
O evento foi promovido pela Secretaria Municipal de Cultura e parceiros, marcando o retorno do palestrante aos debates públicos na cidade após uma década. A mediação dos trabalhos foi conduzida pelo professor de História Arthur Luiz Peixer. Na abertura das discussões, ele destacou a relevância de resgatar o episódio histórico que se aproxima de completar 110 anos de seu desfecho oficial.
“_A história não se encerra com o fim de um conflito. Suas consequências podem permanecer nas formas de ocupação da terra, nas desigualdades sociais, nas disputas em torno dos recursos naturais e também nas maneiras pelas quais determinados grupos têm sua memória reconhecida ou silenciada”, declarou a reportagem durante a atividade. Peixer acrescentou ainda que ocupar a Casa Legislativa simboliza que “o povo e a resistência do Contestado vive e respira_”.
Fraga, que é professor doutor associado da Universidade Estadual de Londrina (UEL), atua junto à Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR) e pesquisa o conflito regional desde 1994. Para estruturar o panorama socioeconômico, ele cruzou dados estatísticos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Produto Interno Bruto (PIB) com o Índice de Progresso Social (IPS), ferramenta que pontua as condições de vida de 0 a 100 com base em necessidades básicas, bem-estar e oportunidades. As 26 cidades analisadas somam 582 mil habitantes espalhados por uma área de cerca de 20 mil quilômetros quadrados.
Diferenças entre economia e acesso social
A média regional do IPS atingiu 59 pontos, patamar muito próximo à média nacional, fixada em 58. O pesquisador frisou que o índice geral mascara discrepâncias acentuadas entre os municípios. Rio Negro (PR) alcançou o melhor resultado do bloco, com 66 pontos, enquanto Cruz Machado (PR) figurou na ponta inferior, marcando 54.
Caçador ficou na terceira colocação geral da amostragem, somando 62 pontos. O município atende 75% das necessidades básicas de sua população e registra 63% no pilar de bem-estar. Contudo, o acesso a oportunidades atinge somente 42%, patamar considerado crítico pelo docente. O levantamento também apontou que a taxa de garantia de direitos individuais na cidade é de apenas 19,13%. Municípios de porte demográfico menor, como Matos Costa, conseguiram atingir os mesmos 62 pontos de IPS por meio de ações públicas locais, mesmo apresentando um PIB per capita inferior.
Ao analisar o conjunto das 26 cidades, o estudo revelou que 73% dos cidadãos contam com necessidades básicas supridas e 61% usufruem de bem-estar. O gargalo comum reside nas oportunidades, restritas a 42% dos moradores. Embora o ensino superior chegue a 36% da população, a carência de postos técnicos de alta complexidade provoca evasão constante de mão de obra jovem.
“Não há oportunidades, sobretudo para a juventude aqui”, afirmou.
O palestrante comparou essa realidade com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do município, que evoluiu de cerca de 0,6 nos anos 2000 para mais de 0,8 no cenário atual. Para Fraga, o índice tradicional mascara faixas expressivas de vulnerabilidade social que variam entre 30% e 40% da comunidade, contingente que corre risco imediato de insegurança alimentar em períodos de retração financeira.
“_Não adianta Caçador ter um IDH de 0,8 com uma vulnerabilidade que vai de 30 a 40_”, alertou. O pesquisador complementou que “_os dados mostram que a região é rica, mas que a população é empobrecida_”.
Falta de serviços essenciais e formação humana
Durante a explanação, o conferencista abordou carências de infraestrutura básica no cotidiano da microrregião. Ele apontou a ausência de um hospital de referência no município como um entrave que obriga pacientes a se deslocarem longas distâncias rumo a polos como Chapecó, Curitibanos, Lages e Florianópolis, além de criticar as condições de trafegabilidade da malha rodoviária.
Ao discutir metas de expansão populacional, o docente defendeu foco na dignidade comunitária.
“Nós não precisamos chegar a 100 mil, nós poderíamos ter 20 mil pessoas vivendo com dignidade, é o suficiente.”
Fraga também cobrou engajamento social para que a unidade local da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) passe a ofertar cursos voltados às licenciaturas e humanidades. O objetivo seria suprir demandas intelectuais e educativas históricas da localidade, garantindo formação crítica para subsidiar novas políticas públicas.
Pressão sobre a mata nativa e risco de escassez hídrica
O impacto do modelo produtivo do agronegócio e da silvicultura dominou a etapa final da apresentação. O geógrafo apontou o avanço contínuo do plantio de pinus e das lavouras de soja como os principais vetores de desfiguração da cobertura vegetal nativa, com ênfase na quase total supressão das florestas com araucária.
“Nós conseguimos extinguir um bioma brasileiro em 110 anos”, salientou.
O monitoramento apresentado demonstrou que Lebon Régis perdeu 22% de suas matas nativas nos últimos 26 anos, processo impulsionado pelo cultivo florestal de pinus, soja e batata, associado a um uso de agrotóxicos em níveis classificados como extremos. O levantamento também registrou perdas recentes de 18% em Timbó Grande e de 15% em General Carneiro. Caçador apresentou redução recente de 12%, índice considerado moderado pelo histórico de desmatamento ocorrido nos ciclos madeireiros das décadas anteriores.
A alta demanda hídrica dessas plantações industriais embasou outro alerta grave: projeções cartográficas apontam risco iminente de escassez de água na região até o ano de 2040 caso o modelo de consumo permaneça sem regulação.
Marcas permanentes e memória regional
Para Fraga, o término formal dos combates bélicos em 1916, com a assinatura do tratado de limites, não significou a paz imediata no interior do território. A expulsão de posseiros caboclos, as perseguições institucionais e a destruição de moradias por meio do fogo persistiram até 1943, perpetuando disparidades no acesso à posse de terras.
Diante desse cenário, o docente sustentou que _“o Contestado é uma guerra que segue, porque há milhares de pessoas nessa região inteira ainda lutando pelo direito de ser parte e de viver_”.
As reflexões integram o calendário da Semana do Contestado, promovida no município para resgatar a ancestralidade e valorizar as tradições locais. As ações já contaram com o ato de celebração dos 40 anos do Museu do Contestado, na quarta-feira (28), e atividades educativas realizadas pela Cáritas Caçador em parceria com cursos da UNIARP no bairro Martello.
Com informações/fonte: Portal RBV.












