Modelo adotado pela montadora americana deu origem à discutida escala 5x2 e transformou a rotina de trabalho e a economia
Modelo adotado por Henry Ford provou a eficiência da escala 5×2 para funcionários e economiaFoto: BBC/Reprodução/ND Mais
A criação da escala 5×2 completou 100 anos e revolucionou as relações trabalhistas globais. A estratégia inovadora provou que garantir dois dias de descanso aumentava a produtividade industrial.
Idealizado pela Ford, o modelo de jornada semanal reduziu o tempo de expediente nas fábricas. A iniciativa demonstrou que o tempo livre estimulava o consumo e gerava lucros maiores.
A transição para o novo formato não ocorreu de forma repentina. A fabricante já realizava testes em determinados departamentos antes de oficializar o formato. Em 1922, o presidente da empresa desde 1919, Edsel Ford, filho do fundador Henry Ford, defendeu publicamente que os trabalhadores necessitavam de mais de um dia por semana para descanso e lazer, visando melhor convivência familiar.
A decisão final de Henry Ford não possuía caráter exclusivamente humanitário, carregando um forte impacto social. O empresário identificou a redução da jornada como uma engrenagem essencial de produtividade.
Anos antes, em 1913, a linha de montagem automatizada do modelo Ford T já havia reduzido o tempo de fabricação de um veículo de 12 horas para pouco mais de 1h30. Em 1914, Ford dobrou o piso salarial dos operários, gerando polêmica entre industriais concorrentes.
“O trabalhador também passava a ser visto como consumidor”, explicou Martinez, apontando que o descanso permitia que as pessoas viajassem, comprassem e utilizassem mais automóveis.
O sistema ganhou forte adesão nos Estados Unidos após o sucesso na montadora. Em 1938, a legislação norteamericana limitou a jornada semanal em 44 horas. Após o período, em 1940, o limite máximo caiu para 40 horas semanais, espelhando exatamente a realidade aplicada pela Ford 14 anos antes.
No Brasil, as restrições de carga horária evoluíram de maneira mais tardia. Em 1932, o governo de Getúlio Vargas editou dois decretos que limitavam o expediente a oito horas diárias e seis dias por semana. Esses tetos foram consolidados em 1943 com a aprovação da CLT. O descanso semanal remunerado foi assegurado por lei somente em 1949.
A promulgação da Constituição de 1988 fixou o limite máximo em 44 horas semanais, rejeitando propostas que tentavam estabelecer o teto de 40 horas. Martinez relatou que houve forte oposição de setores comerciais, financeiros e empresariais contra reduções mais severas.
Henry Ford, principal nome da montadoraFoto: BBC/Reprodução/ND Mais
Segundo Barbiero, o recesso de dois dias semanais obteve verdadeiro fôlego nacional após 1988. Em múltiplos segmentos, a carga de 44 horas semanais acabou sendo redistribuída de segunda a sexta-feira, consolidando a rotina profissional de maneira definitiva.
A iniciativa centenária de Henry Ford comprovou que descanso, produção em massa e consumo econômico operam em sintonia. Diante desse legado originado no coração da grande indústria, permanece o questionamento sobre os motivos que tornam o equilíbrio entre trabalho e descanso um tema de acesos debates contemporâneos.
Fonte: ND Mais