• 21 de julho de 2026

Enquanto o Brasil olha para a tarifa de 25%, uma segunda investigação dos EUA pode tornar a conta ainda maior

O tarifaço que entra em vigor em 22 de julho talvez não seja o fim da pressão americana. Uma segunda investigação do USTR pode adicionar novas tarifas e ampliar a incerteza para exportadores.

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Enquanto o Brasil discute a tarifa de 25%, uma segunda investigação do USTR pode ampliar ainda mais as barreiras comerciais americanas.Foto: Imagem gerada por IA/ND Mais

Desde que Washington confirmou a tarifa de 25% sobre parte das exportações brasileiras, praticamente todo o debate ficou concentrado na mesma pergunta: quanto o Brasil perderá quando a medida entrar em vigor no dia 22 de julho?

É uma preocupação legítima. Mas ela esconde um problema potencialmente ainda maior.

Enquanto empresários, exportadores e governos discutem os efeitos imediatos do tarifaço, outra investigação continua avançando discretamente em Washington. Ela não trata de Pix, desmatamento, etanol ou comércio digital. O foco agora é trabalho forçado e trabalho infantil.

Se essa segunda investigação resultar em novas medidas, determinados produtos brasileiros poderão enfrentar uma tarifa adicional de até 12,5%, elevando a carga total para 37,5% em alguns casos. Em outras palavras, o tarifaço que domina as manchetes talvez seja apenas a primeira etapa.

São duas investigações completamente diferentes

Essa é uma distinção que passou despercebida por boa parte da cobertura.

A tarifa de 25% anunciada na semana passada decorre da investigação aberta pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) sobre práticas comerciais brasileiras.

Washington argumenta que o Brasil mantém políticas consideradas prejudiciais ao comércio americano em áreas como comércio digital, sistema de pagamentos eletrônicos, acesso ao mercado de etanol, proteção à propriedade intelectual, combate à corrupção e desmatamento ilegal. Após um ano de investigação, audiências públicas e negociações, o governo americano decidiu aplicar a tarifa de 25% sobre milhares de produtos brasileiros a partir de 22 de julho.

A segunda investigação segue outro caminho.

Ela faz parte de uma ofensiva muito mais ampla do USTR envolvendo 60 economias, acusadas de não adotar ou não aplicar de maneira suficientemente eficaz mecanismos para impedir o comércio de produtos associados ao trabalho forçado. O Brasil está entre os países alcançados por esse processo.

Embora ambas utilizem a Seção 301 da legislação comercial americana, tratam de assuntos distintos. Por isso, uma não substitui a outra. As duas podem coexistir.

Por que isso preocupa tanto?

Porque os percentuais podem se acumular.

O próprio USTR colocou em consulta pública a proposta de aplicar uma tarifa adicional de 12,5% aos países que, segundo Washington, não possuem mecanismos adequados para impedir a entrada de produtos ligados ao trabalho forçado em suas cadeias comerciais. O Brasil aparece entre eles.

Se a proposta for confirmada para os produtos brasileiros abrangidos, alguns setores poderão enfrentar uma carga tarifária significativamente superior à anunciada até agora. Reuters destaca que o total poderia alcançar 37,5% em determinados casos.

Isso muda completamente o cálculo de competitividade. Uma empresa que ainda conseguia absorver parte de uma tarifa de 25% talvez deixe de conseguir competir diante de um aumento próximo de 40%.

Não é apenas uma discussão sobre direitos humanos

Seria um erro interpretar essa investigação apenas como uma iniciativa humanitária. Combater trabalho forçado é um objetivo legítimo e amplamente aceito internacionalmente.

O problema é que, no ambiente atual da política comercial americana, temas como direitos trabalhistas, meio ambiente e segurança econômica passaram a integrar o arsenal da política industrial. Na prática, critérios sociais também funcionam como instrumentos comerciais.

Os Estados Unidos afirmam que produtos fabricados com trabalho forçado distorcem a concorrência porque chegam ao mercado com custos artificialmente menores. Sob essa lógica, impor tarifas serviria tanto para proteger trabalhadores quanto para evitar concorrência considerada desleal.

Esse raciocínio tende a aparecer cada vez mais em disputas comerciais internacionais.

O recado de Washington também foi político

Há outro aspecto que merece atenção. Autoridades americanas deixaram claro que novas respostas brasileiras poderão provocar medidas adicionais. Em outras palavras, Washington procura estabelecer um mecanismo de escalada.

Se Brasília responder com retaliações comerciais, existe espaço político e jurídico para que a administração americana amplie novamente as barreiras. Isso não significa que novas tarifas sejam inevitáveis. Mas significa que a negociação ficou mais complexa.

Cada decisão tomada por um lado passa a influenciar diretamente o comportamento do outro.

O impacto para Santa Catarina pode ser maior do que parece

Santa Catarina possui uma economia profundamente integrada ao comércio exterior. Máquinas, móveis, madeira, autopeças, motores elétricos, produtos metalúrgicos e diversos bens industriais dependem do mercado americano em diferentes graus.

Nas últimas semanas, muitos empresários concentraram seus esforços em entender quais produtos ficaram dentro ou fora da tarifa de 25%. Agora surge outra variável.

Mesmo empresas atualmente protegidas por exceções precisarão acompanhar atentamente o andamento da segunda investigação. A incerteza passou a fazer parte do custo de exportar. E incerteza costuma ser um dos piores inimigos do investimento.

Empresas adiam decisões, reduzem contratações, renegociam contratos e procuram novos mercados antes mesmo que uma tarifa adicional seja efetivamente aplicada.

O comércio virou uma negociação permanente

Talvez essa seja a principal transformação provocada pelo governo Trump. Durante décadas, empresas trabalhavam considerando que acordos comerciais permaneceriam relativamente estáveis por muitos anos.

Hoje, o cenário mudou. Uma investigação pode abrir outra. Uma tarifa pode ser seguida por uma segunda. Uma negociação pode ser retomada ou interrompida conforme evoluem as relações diplomáticas.

O comércio internacional passou a funcionar em estado quase permanente de revisão.

O pior ainda pode não ter chegado

A tarifa de 25% representa um choque importante para parte das exportações brasileiras. Mas ela já possui data para começar. Já é conhecida. Já entrou nos cálculos das empresas.

A segunda investigação ainda não. Ela continua em andamento, cercada de incertezas e capaz de alterar novamente o cenário. É justamente isso que torna o momento tão delicado. O maior risco para o exportador brasileiro talvez não seja apenas conviver com uma tarifa elevada.

É descobrir que ela não era o capítulo final da história.

Fonte: ND Mais

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