• 24 de julho de 2022

Dois séculos depois, uma nova leitura da Independência do Brasil pelas províncias de SC

No episódio da Independência do Brasil, a frase “a história é contada pelos vencedores”, atribuída ao escritor inglês George Orwell (“A revolução dos bichos”, “1984”), serve como uma luva. Prestes a completar 200 anos, o fim da submissão do Brasil a Portugal é cercado de circunstâncias que a historiografia oficial não explicou ou aprofundou e que, por interesses diversos, chegou aos dias de hoje repleto de distorções que prejudicam o entendimento de um evento crucial na história do Brasil.

Essa tese sobre os esquecimentos (que considera propositais) em torno do fato é que moveu o escritor e jornalista Nelson Adams Filho a publicar o livro “A Independência do Brasil pelas Províncias de Santa Catarina e São Pedro do Sul”, lançado no final de junho na Biblioteca Pública do Estado, em Florianópolis.

Em síntese, a obra mostra como o 7 de setembro de 1822 esteve longe de ser um acontecimento consensual e que a narrativa construída após a data serviu a conveniências que os historiadores contemporâneos começam a tirar do limbo. Após questionar os relatos conhecidos, ele descreve os desdobramentos do grito do Ipiranga nas províncias do Sul, igualmente cercados de mistérios.

Um fato pouco explorado pela historiografia é a ferrenha oposição do Dom Pedro 1º ao fim do vínculo do Brasil com Portugal. “Em 28 das 31 cartas escritas ao pai Dom João 6º, que havia voltado a Lisboa, entre abril de 1821 e setembro de 1822, Dom Pedro se mostra contrário à separação”, diz Adams Filho. O que teria motivado a mudança de comportamento que resultou no “independências ou morte!”, momento que simboliza a ruptura das amarras entre a colônia e a metrópole?

O autor do livro especula que aspectos da personalidade do imperador – sua conhecida impulsividade, a incapacidade de entender o que vinha ocorrendo em diferentes regiões do Brasil (constantes revoltas e insatisfações populares, por exemplo), o despreparo para lidar com o vácuo de poder deixado pelo pai e a influência de assessores diretos, como José Bonifácio de Andrada e Silva – pesaram na decisão de proclamar a Independência.

E há o cenário onde se deu o feito principal, a proclamação. “A montaria não era um cavalo, mas uma besta gateada, capaz de suportar longos deslocamentos e os desafios da Serra de Lorena (por onde passou a comitiva)”, afirma Adams. O ambiente retratado pelo pintor Pedro Américo na célebre tela sobre a Independência é glamurizado, com uma guarda de honra luxuosa e fardamento refinado – nada condizente com os fatos. Além disso, Dom Pedro estava indisposto, com diarreia, bem diferente da figura garbosa mostrada à posteridade nas obras de artistas da corte.

Escritor e jornalista Nelson Adams Filho levantou a tese dos esquecimentos propositais – Foto: Divulgação/ND

Outra forma de interpretar a história

O historiador Nelson Adams Filho defende a revisão da história a partir das evidências de que, no momento da Independência, às margens do rio Ipiranga, nada houve de heroico ou mítico no comportamento do imperador. “Assim como eu, milhões de brasileiros aprenderam na escola coisas que não combinam com os acontecimentos”, afirma. Personagens importantes, como Joaquim Gonçalves Ledo e José Clemente Pereira, foram apagados da história oficial relativa à Independência.

Como o IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro) foi presidido por Dom Pedro 2º entre 1841, quando ele assumiu o trono, e 1889, na Proclamação da República, não surpreende que os relatos tenham apenas um viés, enaltecendo a monarquia. “O imperador chegou a transferir a sede do IHGB para dentro da Corte”, informa Adams. Ele enaltece em Dom Pedro 1º os “grandes méritos na condução inicial na formação desta Nação”, mas endossa algumas considerações correntes sobre seu temperamento. “Só gostava de mulheres e de cavalos”, diz.

Em seus livros, Adams utiliza os critérios da chamada Nova História, que ganhou força na segunda metade do século 20 e não se limita a expor a cronologia dos fatos, como faz a historiografia tradicional. Se antes as fontes eram somente documentos militares e fontes governamentais, a nova corrente considera como matéria prima também as tradições orais, os depoimentos de pessoas comuns, pinturas e a arte rupestre, por exemplo. “Qualquer vestígio da ação humana – como a ponta de uma flecha – pode ser usada como elemento para narrar a história”, afirma.

Como a notícia da proclamação chegou ao Desterro

O dia 23 de agosto de 1822 marcou a publicação de um Manifesto à Nação por maçons do Grande Oriente do Brasil, no Rio de Janeiro, que declararam a separação do Brasil de Portugal. Foi quando, segundo o historiador Nelson Adams Filho, Dom Pedro começou a aceitar o fato de que a Independência era irreversível. Essa convicção, aliás, estava exposta nas últimas três cartas enviadas a Dom João 6º, na Europa. José Bonifácio, exímio articulador, insuflava o imperador a seguir o caminho da ruptura com a corte portuguesa.

Emissários foram enviados às províncias dando conta da decisão da maçonaria. Para Santa Catarina veio Alexandrino José Tinoco da Silva, que se intitulava “brigadeiro” e se ofereceu para a missão de dar a notícia ao secretário da Junta Governativa local, José da Silva Mafra. O original zincografado deste documento – chamado de Termo de Vereança e Aclamação – está no Arquivo Municipal do Rio de Janeiro, mas uma cópia foi localizada recentemente na Biblioteca Pública do Estado.

Termo de Vereança e Aclamação – está no Arquivo Municipal do Rio de Janeiro, mas uma cópia foi localizada recentemente na Biblioteca Pública do Estado – Foto: Reprodução/ND

 

A figura de Alexandrino Tinoco da Silva permanece sendo uma incógnita, porque não há referências sobre ele nos exércitos de Brasil e Portugal. De qualquer forma, o Termo de Vereança e Aclamação foi entregue a Silva Mafra em 12 de outubro de 1822 (dia do aniversário de Dom Pedro), em frente à igreja matriz do Desterro (antigo nome de Florianópolis), com direito a vivas à igreja católica, ao imperador e à Constituição que ele prometeu promulgar. Solenidades idênticas foram realizadas em Lages, Laguna e São Francisco do Sul.

Vieses monárquico e republicano da ruptura

Um fato que Nelson Adams traz à tona é a atuação da maçonaria já antes da proclamação da Independência – contrariando a tese de que essa sociedade secreta somente se estruturou no Estado a partir de 1831, com a primeira loja maçônica e a criação do jornal “O Catharinense”, por Jerônimo Coelho. “Em 1822 já havia ambiente para a atuação da maçonaria em Santa Catarina”, diz o historiador, ciente de que traz fatos novos a partir das bases deixadas por colegas como Henrique Boiteux, Oswaldo Rodrigues Cabral, Osvaldo Ferreira de Mello e Norberto Ungaretti.

A maçonaria estava dividida entre os vieses monárquico e republicano da ruptura com Portugal. Na primeira linha se alinhava José Bonifácio, mas Nelson Adams suspeita das intenções do chamado Patriarca da Independência. “Ele passou a ser a favor da separação quando teve seu salário cortado por Lisboa”, ressalta, afirmando que seu ganho equivaleria, hoje, a R$ 1,5 milhão por ano. “Ao voltar ao Brasil, em 1821, José Bonifácio passou a receber mesada de Dom Pedro”.

Tela do pintor Pedro Américo sobre a Independência teria custado em torno de R$ 3 milhões, em valores atuais, ao governo brasileiro – Foto: Divulgação/ND

E Mais…

– O bibliotecário Alzemi Machado localizou quase por acaso a cópia do Termo de Vereança e Aclamação na Biblioteca Pública do Estado, em Florianópolis. Instado por Nelson Adams Filho, ele não encontrou o documento, mas esbarrou sem querer numa série de volumes chamada “Centenário da Independência do Brasil”, escondida embaixo de uma estante e ainda não inventariada. Um dos livros continha o fac-símile do termo.

– Adams Filho não compartilha da admiração que muitos historiadores têm por José Bonifácio. Considera-o um “oportunista” que perseguiu adversários da monarquia, inclusive jornalistas. Admite que era um grande intelectual, mas tinha posições ambíguas. “Era contra a escravidão, mas tinha escravos”, afirma. Tutor de Dom Pedro 2º, na infância do imperador, foi chamado de “maquiavélico” por Laurentino Gomes no livro “1822”.

– O Dia do Fico (9 de janeiro de 1822) não tem, segundo Adams Filho, o significado heroico com que foi transmitido às gerações seguintes. Dom Pedro ficou no Brasil porque não queria a separação de Portugal e sabia que, caso fosse embora, a ruptura seria inexorável.

– Dois meses depois da proclamação da Independência, em 11 de novembro de 1822, um aviso imperial ordenava aos governos das províncias (incluindo a de Santa Catarina) a fazer uma devassa sobre agentes contrários à monarquia, como maçons com viés republicano. A ordem valia também para as câmaras provinciais.

– A tela do pintor Pedro Américo sobre a Independência teria custado em torno de R$ 3 milhões, em valores atuais, ao governo brasileiro. Foi encomendada por Dom Pedro 2º em 1886, quando o artista estudava em Florença, na Itália.

– A partir do dia 28 deste mês, Nelson Adams Filho faz um roteiro de palestras e apresentações do livro em associações e escolas de Tubarão, Laguna, Imbituba e Garopaba. Em agosto, fará o mesmo em Florianópolis.

Fonte: ND Mais

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