Choque no Estreito de Ormuz elevou preços globais, travou negociações e aumentou o risco de inflação e combustíveis mais caros
Conflito no Oriente Médio completa dois meses sem solução definitivaFoto: Reprodução/ND Mais
Nesta terça-feira (28), o conflito entre Estados Unidos e Irã completa dois meses desde o início da maior escalada militar recente no Oriente Médio.
A guerra começou em 28 de fevereiro, quando forças americanas e israelenses lançaram uma grande ofensiva aérea contra instalações estratégicas iranianas, incluindo bases de mísseis balísticos, sistemas de defesa aérea e centros de comando militar.
O episódio mais impactante foi a morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, durante bombardeios em Teerã, em uma ação que redesenhou o tabuleiro político da região e elevou o temor de uma batalha prolongada.
Nos dias seguintes, o Irã respondeu com centenas de mísseis balísticos e milhares de drones contra Israel e bases americanas espalhadas pela região, incluindo Bahrein, Jordânia e Kuwait.
O Hezbollah abriu uma nova frente no Líbano, e o conflito rapidamente deixou de ser apenas bilateral para se tornar uma crise regional com impacto global.
O atual líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei , em 2024Foto: Reuters/ND Mais
Do ponto de vista militar, Israel e EUA conseguiram enfraquecer fortemente parte da capacidade ofensiva iraniana.
Defesas aéreas foram destruídas, lançadores de mísseis foram neutralizados e diversos comandantes da Guarda Revolucionária morreram nas primeiras semanas.
Ainda assim, o principal objetivo estratégico — desestabilizar ou provocar uma mudança de regime — não aconteceu.
Mesmo com a morte de Khamenei e de figuras centrais do comando militar, o Irã reorganizou rapidamente sua liderança e manteve sua estrutura de poder.
O novo comando, associado ao círculo mais duro do regime, segue rejeitando qualquer recuo no programa nuclear, que continua sendo o principal impasse diplomático.
Na prática, o confronto enfraqueceu o Irã, mas não resolveu o problema central que motivou a ofensiva.
Estreito de Ormuz virou o principal foco econômico da criseFoto: Reuters/ND Mais
Se militarmente houve destruição, economicamente o maior campo de batalha passou a ser o Estreito de Ormuz.
A passagem marítima liga o Golfo Pérsico ao restante do mundo e concentra cerca de 20% de todo o petróleo e gás liquefeito global.
Ao longo de março e abril, minas navais, ataques a embarcações e bloqueios elevaram o risco de colapso no fluxo energético mundial.
Antes do conflito, o barril do petróleo Brent estava na casa dos US$ 72. No auge da crise, ultrapassou US$ 120, com alta superior a 55%.
Agora, mesmo com a trégua parcial, segue entre US$ 108 e US$ 112 — ainda cerca de 50% acima do nível pré-conflito.
Especialistas classificam o episódio como o maior choque recente de oferta de petróleo, com perda estimada de até 12 milhões de barris por dia no pico da crise.
Isso afetou gasolina, diesel, transporte marítimo e custos industriais em diversos países.
Em abril, uma tentativa de cessar-fogo de duas semanas foi mediada pelo Paquistão, com apoio indireto da China.
As conversas envolveram representantes americanos e iranianos em Islamabad, mas fracassaram.
O principal impasse segue sendo o mesmo: o controle do Estreito de Ormuz e a exigência dos EUA de limitar ou desmontar o programa nuclear iraniano.
O Irã sinaliza disposição para aliviar restrições marítimas, mas sem abrir mão de pontos considerados estratégicos para sua soberania.
Enquanto isso, os Estados Unidos mantêm bloqueio naval e endurecem o discurso.
Donald Trump chegou a publicar uma ordem pública determinando que a Marinha americana “atire e mate” qualquer embarcação suspeita de instalar minas no estreito, o que reforçou o temor de nova escalada militar.
Ou seja: há menos bombardeios, mas não há paz consolidada.
Tropa israelense avança em território do LíbanoFoto: Avichay Adraee/@AvichayAdraee/X
Outro fator que impede uma estabilização completa é a atuação do Hezbollah no sul do Líbano.
Israel ampliou sua presença militar na região e busca criar uma zona de segurança permanente, numa tentativa de reduzir a ameaça de foguetes e drones lançados pelo grupo.
Apesar das perdas e da redução operacional, o Hezbollah mantém capacidade de guerrilha e segue funcionando como um dos principais instrumentos indiretos de pressão do Irã.
Isso impede que o conflito seja tratado apenas como uma disputa EUA-Irã: ele se espalha por várias frentes e mantém risco constante de reativação total.
Alta do petróleo e fertilizantes já pressiona o BrasilFoto: Roberto Rosa/Agência Petrobras/Reprodução/ND Mais
Mesmo distante do front, o Brasil já sente os efeitos econômicos da guerra.
Como exportador líquido de petróleo bruto, o país se beneficia parcialmente com preços internacionais mais altos. Porém, importa derivados essenciais, principalmente diesel, o que pressiona diretamente o transporte e o custo logístico.
Na prática, isso significa mais pressão sobre combustíveis, frete e inflação de alimentos.
Outro impacto relevante está no agronegócio.
O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza, e uma parcela importante da ureia nitrogenada vem justamente do Oriente Médio.
Com o conflito, o preço global da ureia subiu cerca de 40%, elevando os custos de produção para soja, milho e outras culturas.
Esse efeito costuma chegar depois, mas de forma pesada: encarece a próxima safra e gera repasse indireto ao consumidor.
Além disso, há impacto cambial, aumento da aversão ao risco global e maior cautela do Banco Central em relação aos juros.
Ou seja, mesmo sem tropas ou bombardeios, o brasileiro sente a guerra no supermercado e no posto de gasolina.
Passados dois meses, o saldo é de destruição elevada, forte instabilidade econômica e poucas respostas concretas.
O regime iraniano sobreviveu, o programa nuclear continua em disputa, o Estreito de Ormuz segue como epicentro da crise e o cessar-fogo permanece frágil.
A batalha saiu da fase de ataques massivos e entrou em um impasse mais perigoso: menos explosões visíveis, mas tensão permanente e enorme custo econômico.
O risco agora não está apenas em uma nova ofensiva militar, mas no prolongamento silencioso de uma crise que já afeta energia, alimentos, inflação e relações diplomáticas em todo o planeta.
Fonte: ND Mais