Santa Catarina tem vivido uma crise no atendimento hospitalar pediátrico. Em várias regiões do Estado, unidades superlotadas, com problemas de infraestrutura e condições de trabalho precárias para os profissionais da saúde foram notificadas.
Entre elas está o Hospital Infantil Joana de Gusmão, localizado em Florianópolis. Em junho de 2021, parte do teto do hospital desabou após um cano de 110 mm estourar na unidade. De acordo com os responsáveis na época, a tubulação ficava dentro de um forro que desencaixou.
Além de danificar o teto, a água alagou o corredor entre o Centro de Estudos e a Ala de Emergência. Nenhum profissional ou paciente ficou ferido por conta da situação. Entretanto, no começo do mês de abril deste ano, outro cano estourou na instituição.
De acordo com a SES (Secretaria de Estado da Saúde), o rompimento foi inesperado e aconteceu por conta dos altos índices de chuva registrados no município naquela semana. A unidade disse novamente que ninguém se machucou e frisou que reformas periódicas são feitas no lugar.
Apesar disso, outros problemas continuaram. O tomógrafo da unidade ficou sem funcionamento durante um mês por estar quebrado, o que prejudicou atendimentos e cirurgias eletivas na unidade, que precisaram ser suspensas até o conserto do aparelho.
Após os tumultos causados pelas demandas do equipamento fora de funcionamento, o MPSC (Ministério Público de Santa Catarina) informou que um novo tomógrafo foi comprado pelo Estado e que o órgão acompanha agora os trâmites, a entrega e a instalação do mesmo.

Já em março do último ano, a climatização da UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do mesmo hospital foi comprometida após oito aparelhos de ar condicionado terem pifado. Em entrevista ao SC No Ar, o secretário da saúde de Santa Catarina, Alexandre Fagundes, comentou que “essas situações ocorrem e prontamente são resolvidas”.
Indo além dessas questões, os aparelhos auditivos do hospital infantil estavam sem certificação para serem utilizados desde março de 2022. Com isso, exames de audição e cirurgias eletivas que necessitam dos equipamentos foram suspensas por tempo indeterminado.
“Com relação aos equipamentos, estamos trabalhando para que tenhamos a manutenção adequada e para que não tenhamos que parar com os atendimentos, prestando um serviço adequado a toda a população. Por isso já requisitamos um orçamento de R$ 40 milhões para fazer aquisições para as nossas unidades hospitalares”, disse o secretário.
No início do mês, a taxa de ocupação de leitos de UTIs Neonatais fornecidos pelo SUS era de 100% em cinco regiões de Santa Catarina. Os dados foram retirados do painel de leitos da SES. Segundo análises, o Estado tinha na época apenas 12 leitos de UTI neonatal disponíveis.
A taxa de ocupação era de 94,15% em todas as regiões, exceto a Grande Florianópolis, Planalto Norte e Meio-Oeste e Serra, que tinham todos os leitos ocupados. Por conta disso, o MPSC instaurou um inquérito civil a nível estadual para apurar a situação.
Outro inquérito também foi instaurado para entender a lotação da UTI Neonatal da maternidade do Hospital Ruth Cardoso, em Balneário Camboriú, que sofre com a falta de leitos e sem a possibilidade de criação de novos.
No local, gestantes tiveram cesarianas desmarcadas por falta de leitos para os recém-nascidos.
Hospital Ruth Cardoso, em Balneário Camboriú, teve problemas relacionados às internações neonatais – Foto: Secom Balneário Camboriú/Divulgação/ND
Com relação a isso, o secretário comentou que “essa falta de leitos não é desse momento, é de tempos. Nós estamos trabalhando com a abertura de leitos de UTI no Sul do Estado, como em Araranguá e Criciúma. Já abrimos também cinco leitos no Hospital Regional de São José, e mais cinco serão abertas”.
Diversas regiões catarinenses já atingiram a ocupação máxima de seus leitos de UTI – Foto: Portal Hospitais do Brasil/Divulgação
Outras possibilidades estão sendo estudadas na Grande Florianópolis, no Médio Vale, no Planalto Norte e no Grande Oeste, conforme afirma o gestor da SES. Atualmente, há 210 leitos leitos neonatais em Santa Catarina, sendo que 205 estão ocupados e apenas cinco estão disponíveis.
“Santa Catarina teria que ter cerca de 215 a 220 leitos de UTI neonatais. Nós não estamos longe de atingir isso”, afirma.
Ainda seguindo nas questões que envolvem as unidades pediátricas de Santa Catarina, durante a pandemia da Covid-19 alguns hospitais foram mobilizados para o atendimento da doença, e somente agora os equipamentos estão sendo desmontados e as unidades voltando para seus plenos funcionamentos.
Hospital Infantil de Florianópolis acumula equipamentos fora de uso e que precisam de manutenção – Foto: Mariana Passuello/ND
Esse é o caso do Hospital Infantil de Florianópolis, que deve ter sua unidade pediátrica reaberta até o final do mês de abril, conforme confirmação da SES.
Já o Hospital de São José, que também foi utilizado para contenção da pandemia, demorará mais tempo para receber a pediatria, pois os aparelhos ainda não foram totalmente removidos.
Fagundes ainda comentou que o governo do Estado está trazendo soluções de forma definitivas para esses problemas, sendo que uma delas foi o anúncio de mais de R$ 500 milhões em investimentos, que além de serem direcionados para as alas pediátricas, serão também convertidos em um novo instituto de cardiologia catarinense.
Maternidade Carmela Dutra é uma das unidades que irá compor o complexo hospitalar – Foto: Mauricio Vieira/Secom/ND
A unidade logo deve receber um edital para a elaboração de seu projeto e posterior construção. Ainda, um novo complexo hospitalar deve ser também instalado na Grande Florianópolis, com os mesmos financiamentos, interligando a Maternidade Carmela Dutra, o Hospital Infantil Joana de Gusmão, Hospital Nereu Ramos e Hospital Celso Ramos para possibilitar ainda mais atendimentos a população.
Alguns outros problemas estruturais também foram identificados no Hospital e Maternidade Marieta Konder Bornhausen, em Itajaí, no Hospital Regional Hans Dieter Schmidt, em Joinville, e no Hospital Regional do Oeste, em Chapecó. Eles foram debatidos com o secretário.
Tanto em Itajaí quanto em Chapecó, novas alas cirúrgicas foram construídas com investimentos do Estado. No Oeste, as salas foram inauguradas há três anos, mas ainda não estão sendo utilizadas. Já no Marieta, as obras permanecem em fase final de entrega.
Hospital Regional do Oeste é referência no atendimento de toda a região, entretanto, ainda carecem de recursos – Foto: Mauricio Vieira/Divulgação/ND
Segundo o secretário, neste último caso, falta somente a aquisição de equipamentos para finalizar as alas. Cerca de R$ 40 milhões foram investido nestas infraestruturas. Alexandre, entretanto, não se pronunciou sobre a situação no HRO, que inclusive está com filas de espera nas cirurgias eletivas por falta de recursos.
Sobre a situação, a gerente Regional de Saúde, Otília Rodrigues, revelou que somente em Chapecó, há 8.690 pacientes na espera pela realização de cirurgias eletivas. “O Estado duplicou investimentos e fez convênios com 13 hospitais na região. Mas alguns têm dificuldades de estrutura e falta de profissionais para fazer os procedimentos”.
Enquanto isso, o diretor técnico do HRO, Hélvion Ribeiro Filho, afirmou que na instituição não há falta de médicos e nem de salas cirúrgicas. “O problema está no baixo pagamento aos médicos oferecido pelo Estado. Os valores são divididos com anestesistas, o que torna os procedimentos inviáveis financeiramente”.
De acordo com a Gerência Regional de Saúde, o governo de Santa Catarina paga o dobro do valor do SUS (Sistema Único de Saúde), já que são repassados valores de prêmio, pré e pós-operatório. A situação permanece em aberto, e uma audiência com o secretário de Estado da Saúde deve ser marcada para resolver a situação.
Enquanto isso, em Joinville, pontuais situações como a falta de ar condicionados em pleno funcionamento no verão afetam os atendimentos locais. Sobre a situação, Alexandre disse que tais ocorrências são resolvidas no mesmo momento.
Hospital Regional Hans Dieter Schmidt tem problemas no verão quanto a sua circulação de ar – Foto: Juliane Guerreiro/ND
Mas não para por aí. Em relação ao ambulatório oncológico que deve ser construído no Hospital Infantil de Florianópolis, a aplicação de R$ 1 milhão foi enviada pela AVOS (Associação de Voluntário de Saúde do Hospital Infantil Joana de Gusmão) para as obras.
Na época, o Estado se comprometeu com a aplicação da mesma quantia para a finalização da estrutura.
Entretanto, o dinheiro não chegou, e a unidade ainda não foi entregue. “Estamos discutindo com a diretoria, e a ideia é investir os recursos tão logo que a gente consiga tramitar no processo administrativo”, diz o secretário de saúde.
Hospital em Tubarão está pronto para colocar em funcionamento sua ala de radioterpia – Foto: HNSC/Divulgação
Por fim, a ala de radioterapia no Hospital Nossa Senhora da Conceição, que está pronta, espera agora autorização do Ministério da Saúde para entrar em funcionamento. A ideia é que a unidade atenda as mulheres de Tubarão que necessitam deslocar-se até outros municípios para tratar de suas doenças, em específico, o câncer.
“A secretaria pode se comprometer com a agilidade desse processo”, frisou o secretário.
Fonte: ND MAIS