Enquanto o impacto médio nacional recuou, SC segue com mais da metade de suas exportações aos EUA sob a mira de sobretaxas; setor de madeira e manufaturados lideram as perdas de competitividade
O tarifaço dos EUA ao Brasil deve afetar exportações, investimentos e cadeias produtivas em estados como SCFoto: Montagem/Canva/ND Mais
A entrada em vigor do segundo “tarifaço” norte-americano, prevista para esta quarta-feira (15), coloca o setor produtivo de Santa Catarina em estado de alerta. Um estudo divulgado pela FIESC (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina) revela que o novo regime aduaneiro imposto pelos Estados Unidos desenha um cenário altamente desafiador para a economia catarinense, com forte potencial de retração nas vendas externas e prejuízos ao mercado de trabalho.
A primeira fase de tarifas (ocorrida entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026) já havia deixado cicatrizes profundas no estado. Segundo o presidente da FIESC, Gilberto Seleme, a economia catarinense deixou de gerar cerca de 7,6 mil empregos formais apenas no primeiro ciclo de barreiras.
“O impacto projetado para esta nova fase tarifária é similar aos danos que já experimentamos no primeiro tarifaço. A expectativa é de que esta segunda leva tenha efeitos muito parecidos, com prejuízo à economia do estado”, adverte Seleme.
Gilberto Seleme, presidente da FiescFoto: Divulgação/ Fiesc/ND
No papel, as alíquotas do novo tarifaço parecem mais brandas: a tarifa nominal máxima caiu de 50% (no primeiro período) para 37,5%. Em SC, a tarifa efetiva — que mede o impacto real sobre os produtos que o estado de fato exporta — recuou de 47,8% para 35,9%.
No entanto, a redução esconde uma armadilha concorrencial. Conforme explica o economista-chefe da FIESC, Pablo Bittencourt, os principais concorrentes internacionais de Santa Catarina foram beneficiados com tarifas ainda mais baixas. Na prática, 518 produtos catarinenses perderão competitividade no mercado americano nesta transição.
O setor de madeira é um exemplo claro dessa oscilação: enquanto a madeira perfilada ganhará fôlego frente aos concorrentes, as portas e molduras de madeira perderão ainda mais espaço, resultando em uma retração de 2,2 pontos percentuais em sua margem competitiva.
Relatórios de defesa do setor madeireiro tentaram conter tarifa americana que ameaça 180 mil empregos, concentrados 90% na região Sul do BrasilFoto: Shutterstock/Reprodução/ND Mais
Os impactos práticos das barreiras comerciais norte-americanas já são conhecidos pelo empresariado local. Durante o primeiro tarifaço, as exportações de Santa Catarina para os EUA caíram 38,29%, despencando de uma média mensal de US$ 141 milhões para US$ 87 milhões.
Após uma breve recuperação decorrente da invalidação temporária das taxas pela Suprema Corte americana em fevereiro de 2026, a nova sobretaxa adicional de 25% (sob a Seção 301) deve consolidar uma queda definitiva de cerca de 40% nos embarques catarinenses rumo aos Estados Unidos.
A Seção 301 é o instrumento legal utilizado pelos Estados Unidos para justificar o tarifaço contra produtos brasileirosFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais
O estudo da FIESC evidencia que a indústria catarinense é muito mais penalizada pelas decisões de Washington do que a média nacional. Isso ocorre porque a pauta exportadora de SC é fortemente concentrada em produtos manufaturados, que são justamente os alvos preferenciais das novas sobretaxas americanas.
Enquanto a parcela das exportações brasileiras afetadas pelas tarifas recuou de 33% para 25%, em Santa Catarina o índice ficou praticamente estagnado no patamar de 56%.
“Esta disparidade evidencia que a perda de competitividade estadual frente ao mercado global será muito mais profunda e exigirá resiliência extrema dos nossos setores industriais”, conclui o economista Pablo Bittencourt.
Fonte: ND Mais