Operação Ponto Final identificou que empresários envolvidos simulavam compras de combustíveis para justificar movimentações financeiras ilícitas
Fotos: GAECO
A operação que desmontou um esquema de corrupção ligado a obras públicas em Blumenau, deflagrada na quarta-feira (6), revelou que uma rede de postos de combustíveis desempenhava papel essencial na movimentação financeira do grupo investigado. Segundo o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas), os estabelecimentos eram utilizados para lavar dinheiro e abastecer o esquema com recursos em espécie destinados ao pagamento de propinas.
De acordo com o coordenador estadual do Gaeco, Wilson Mendonça, e o promotor de Justiça Marcionei Mendes, a chamada Operação Ponto Final identificou que empresários envolvidos simulavam compras de combustíveis para justificar movimentações financeiras ilícitas. A estratégia consistia na emissão de notas fiscais fraudulentas pelos postos para dar aparência legal às transações.
O esquema se aproveitava de uma prática comum entre consumidores: abastecer veículos sem solicitar nota fiscal. Conforme explicaram os investigadores, essas notas “sobrando” eram utilizadas para compor registros fiscais vinculados às empresas investigadas.

O promotor explicou que “essas notas são pegas para montar a nota fiscal” das empresas do esquema. Assim, o combustível era efetivamente vendido para clientes reais, mas os documentos fiscais acabavam sendo redirecionados para alimentar a fraude.
Com isso, o grupo conseguia sacar grandes quantias em dinheiro vivo diretamente nos postos de combustíveis. Os valores seriam usados para pagar vantagens indevidas a agentes públicos, fiscais e engenheiros responsáveis por facilitar irregularidades em contratos públicos e medições de obras.
“As medições fraudulentas eram feitas pelos engenheiros das empresas. E esses fiscais, que eram responsáveis por fiscalizar se de fato essas medições eram ou não fraudulentas, ou se omitiam, e com base nessas medições superdimensionadas, eram realizados pagamentos. E com isso, pagamento de propina, por meio de lavagem de dinheiro de um grupo de postos de combustível, de uma rede de postos de combustível”, descreve o promotor de justiça Marcionei Mendes.
“Há indicativos de lavagem de dinheiro e de uma organização, então, estruturada e organizada, com divisão de tarefas, onde eles faziam, utilizavam esses postos para maquiar a origem desses valores”, completa Wilson Mendonça, coordenador estadual do Gaeco.
As investigações tiveram início há cerca de dois anos, após denúncias feitas por empresários que afirmaram terem sido pressionados a pagar propinas em contratos públicos. Segundo o Gaeco, o esquema criminoso teria movimentado mais de R$ 600 milhões envolvendo fraude em licitações, corrupção e lavagem de dinheiro.

A maioria dos contratos investigados está relacionada a obras executadas entre 2021 e 2024, embora haja indícios de irregularidades anteriores a esse período. Parte desses contratos ainda permanece em vigor, mas já existe decisão judicial buscando suspender algumas das atividades.
Os investigadores identificaram a atuação integrada de três núcleos dentro da organização:
Além de Blumenau, cidade onde há suspeita de envolvimento de servidores públicos, mandados judiciais foram cumpridos em diversos municípios catarinenses, entre eles Florianópolis, Joinville, Itajaí, Jaraguá do Sul, Brusque e Pomerode.
Durante o cumprimento das ordens judiciais, foram apreendidos aproximadamente R$ 500 mil em dinheiro em espécie em três residências de investigados. Também foram encontrados cerca de R$ 270 mil em cheques e outros R$ 50 mil em moedas estrangeiras, incluindo dólares e euros.
A Justiça ainda determinou o uso de tornozeleira eletrônica para um agente público e um empresário apontados como integrantes do cartel.

Até o momento, 23 pessoas e oito empresas são alvo da investigação. Conforme o Gaeco, o número de CNPJs envolvidos pode aumentar significativamente no decorrer da apuração. A operação mobilizou 242 policiais.
Agora, os investigadores avançam para a etapa de análise de documentos, celulares, computadores e demais equipamentos eletrônicos apreendidos para verificar se o esquema possui ramificações ainda maiores.
Em nota oficial, a Prefeitura de Blumenau informou que o Gaeco realizou diligências nas Secretarias de Administração e Obras e que todos os documentos solicitados foram entregues às autoridades.
“A Prefeitura segue à disposição das autoridades e colabora de forma transparente com as investigações, reafirmando seu compromisso com a legalidade e a correta aplicação dos recursos públicos”, destacou o município.
Fonte: RBV