• 26 de novembro de 2025

Crise no agro coloca pressão sobre o governo Lula e expõe fragilidade do crédito rural

Com juros nas alturas, crise no agro se aprofunda e recorde de pedidos de recuperação judicial acende alerta no campo

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Apesar da safra recorde de soja, com a queda na rentabilidade do produtor e o endividamento, a previsão é de crise no agro em 2026Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/ND

Apesar da comemoração do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com os seguidos anúncios de safras recordes, uma “tempestade perfeita” se aproxima do campo. A combinação de juros altos, insumos subindo e preço da produção em queda faz a rentabilidade de diversas culturas despencar e produtores já alertam para uma grave crise no agro no próximo ano.

A crise financeira do campo não é novidade e tem se refletido no aumento do número de pedidos de recuperação judicial no setor. Tanto produtores rurais como empresas do agronegócio têm utilizado cada vez mais esse instrumento.

A crise no agro pode atingir especialmente os produtores de médio porte, que não contam com os ganhos de escala dos grandes nomes do agronegócio nem com os subsídios governamentais destinados à agricultura familiar, apontam representantes da Abramilho e da Aprosoja – associações dos produtores de milho e de soja.

Segundo Fabricio Rosa, diretor executivo da Aprosoja Brasil, o Plano Safra recorde “é uma ilusão” para o produtor médio, já que o volume de dinheiro barato diminuiu. Ele lembra que, do total financiado hoje, apenas 10% do valor emprestado está em contratos de juros subsidiados, parcela destinada principalmente aos pequenos produtores da agricultura familiar.

“O governo sempre anuncia um Plano Safra recorde, mas, enquanto no passado o programa chegou a 33% do total do custeio em operações com taxa de juros equalizadas (subsidiadas), hoje só chega a 10%. O que cresce todo ano são aquelas linhas com juro livre, de mercado, as mesmas que dão problema e não têm participação (financiamento) do governo”, disse Rosa ao ND Mais.

Crise no agro e milho com rentabilidade zerada

O pesquisador da Esalq/USP, Mauro Osaki, vem realizando estudos que apontam para um cenário preocupante quanto as projeções de rentabilidade na safra deste ano. O aumento real dos custos operacionais e a queda da receita dos produtores reforçam o risco de uma crise financeira no campo

Ele ainda alerta que, em muitas regiões, a produtividade média mal cobrirá os custos de produção, acendendo o alerta em especial no Rio Grande do Sul, que, depois de sucessivas quebras climáticas, deve, no máximo, empatar o capital do agricultor.

Segundo seu estudo, a rentabilidade da soja deve cair 36,7% na safra desse ano. Já o produtor de milho deve conseguir, no máximo, empatar o valor investido na produção, com a redução prevista de 92,2% na rentabilidade do milho para essa safra 2025/2026.

As culturas do milho e da soja devem ser as mais atingidas pela queda na rentabilidade e puxar a crise no agroAs culturas do milho e da soja devem ser as mais atingidas pela queda na rentabilidade e puxar a crise no agroFoto: Valter Campanato/Agência Brasil/ND

Safra global recorde aprofunda a crise no agro

As previsões do pesquisador, que apontam redução nas margens, devem se confirmar com a queda no preço do produto diante da ampliação da produção tanto no Brasil como no mundo.

A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), no seu 2º Levantamento de Grãos da safra atual, divulgado na semana passada, aponta aumento de 3,3% da área cultivada no país em comparação com o ano anterior.

Já o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que projeta a produção global de soja, milho e outras commodities agrícolas, divulgou no último dia 18 – depois de um mês sem apresentar dados em função da paralisação orçamentária do governo americano – a atualização da safra mundial.

O levantamento americano aponta que a produção global de milho deve registrar alta de cerca de 4,5%. Já no caso da soja, o levantamento anterior previa crescimento de 1%, mas, nesta última revisão, oscilou para baixo e deve registrar uma pequena queda, mantendo, porém, a tendência de estabilidade na comparação com a safra global recorde do ano passado.

Crise no agro expõe falhas do seguro rural brasileiro

Osaki disse ao ND Mais que o problema brasileiro não é tecnologia nem competência do agricultor, e sim a falta de programas governamentais que protejam o homem do campo contra os riscos climáticos.

“Pode ter um cara muito competente tecnicamente, o melhor agrônomo. Mas, quando ele está sujeito à questão climática e você não tem uma estrutura de governo – como o seguro rural subvencionado que existe nos EUA -, a atividade se torna inviável. O produtor americano tem uma rede de proteção que o brasileiro não tem”, disse o pesquisador.

Ele ainda lembrou que a “Farm Bill” (lei agrícola americana), que subsidia o seguro agrícola, garante que o produtor americano não quebra por causa de uma seca. Entende que, no Brasil, sem essa rede de proteção, três anos seguidos de clima ruim – como aconteceu no Rio Grande do Sul – destroem o patrimônio de gerações, independentemente de quão bom gestor o produtor seja.

“O estado do Rio Grande do Sul é o que mais me preocupa por conta das três últimas safras. Eles ‘tomaram na cabeça’, grande parte não conseguiu pagar o custo operacional efetivo. Quatro temporadas seguidas sem fluxo de caixa, não tem quem pague”, alertou o pesquisador.

Para o diretor-executivo da Abramilho, Glauber Silveira, a situação dos produtores do estado do Rio Grande do Sul é preocupante, e ele aponta que o produtor tem uma cultura de honra muito forte.

“No Rio Grande do Sul, a situação é de saúde pública. Nós temos relatos de suicídios. O produtor é um homem honrado, ele tem vergonha de dever. Quando ele vê que trabalhou o ano todo, colheu bem, mas o dinheiro não paga a conta do banco, ele entra em depressão. Não é ‘choro de barriga cheia’, é uma crise de solvência real”, disse o representante classista.

“Quando falham os mecanismos de crédito, falha a capacidade do produtor rural de se manter" disse o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) sobre a crise no agro“Quando falham os mecanismos de crédito, falha a capacidade do produtor rural de se manter” disse o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) sobre a crise no agro. Foto: Andressa Anholete/Agência Senado/ND Mais

Crise no agro no RS: crédito escasso e impacto social

A situação de crise no estado gaúcho tem reforçado a necessidade de revisão do modelo de seguro rural do país e o assunto foi tema de uma audiência pública na Comissão de Agricultura e Pecuária do Senado, na última semana. Representantes do setor e parlamentares se reuniram para discutir uma solução para a crise de superendividamento do setor rural.

Para o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), é fundamental a oferta de crédito ao produtor para que ele continue na terra.

“Quando falham os mecanismos de crédito, falha a capacidade do produtor rural de se manter ativo. O que está em jogo é a sobrevivência de milhares de famílias e a continuidade de um setor que garante alimento, riqueza e dignidade ao Brasil”, disse o parlamentar.

O presidente da Associação dos Produtores e Empresários Rurais, Arlei Romeiro, criticou a forma como as políticas públicas de crédito rural são conduzidas pelas instituições financeiras e lembrou que, no estado gaúcho, a crise no campo e o superendividamento são apontados como causa para 30 suicídios registrados no estado.

“Temos 30 famílias destruídas, porque os produtores rurais não conseguiram suportar. A vergonha, a pressão, a dificuldade e a falta de condição de seguir na sua atividade rural pesaram”, apontou o dirigente classista.

O secretário‑executivo do Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária), Irajá Lacerda, lembrou que o governo, por meio da Medida Provisória 1.314/2025, disponibilizou R$ 12 bilhões para a renegociação das dívidas dos produtores atingidos por eventos climáticos, e que 98 % desse valor foi destinado ao estado do Sul.

Para o secretário-executivo do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), Irajá Lacerda, uma das razões para a crise no agro é a postura mais conservadora das instituições financeiras na concessão do crédito, o que atribui ao aumento das recuperações judiciais.Para o secretário-executivo do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Irajá Lacerda, uma das razões para a crise no agro é a postura mais conservadora das instituições financeiras na concessão do crédito, o que atribui ao aumento das recuperações judiciais.Foto: Divulgação / Reprodução ND Mais

Crise no agro e barreiras do sistema financeiro

Mas o representante do governo admite que parte dessa ajuda tem tido dificuldades de liberação pelas instituições financeiras, principalmente em razão do endurecimento das regras de concessão de crédito, que seria reflexo do aumento no número de recuperações judiciais (RJ) no campo.

“Estamos vendo cada vez mais uma dificuldade no sistema financeiro na concessão de crédito, em função de vários fatores, como o aumento de recuperações judiciais”, disse o secretário.

Para o auditor do TCU (Tribunal de Contas da União), Agostinho Carvalho, os bancos, especialmente os públicos, por assumirem os riscos das operações, precisam seguir os protocolos para obter as garantias dos tomadores do crédito. Ele aponta que o governo e o Parlamento poderiam avaliar outras medidas para atender aos mais afetados por esses eventos climáticos extremos e os mais endividados que não possuem essas garantias.

“Não são os bancos que concedem subsídio, os bancos vão analisar os riscos e vão trabalhar com a capacidade de cada um. Se o agricultor não tiver capacidade de pagamento, muito provavelmente o banco vai negar aquele empréstimo ou aquela negociação. Talvez uma outra medida pública precise ser tomada para esse grupo de devedores”, defendeu o auditor.

Crise no agro e explosão de recuperações judiciais

O secretário de Política Agrícola do Mapa, Guilherme Campos, também entende que as recuperações judiciais são um dos grandes problemas para a concessão de crédito no campo.

“O Brasil vem passando por uma verdadeira doença de recuperações judiciais muito discutíveis, que colocou todas as instituições financeiras com muita preocupação quanto à concessão de crédito”, defendeu Campos.

Já para o advogado Alisson Giuliano, especialista em recuperação judicial no agronegócio, não existe um “golpe generalizado” contra o sistema financeiro. A onda de calotes não é oportunismo ou estratégia fraudulenta do produtor, mas reflexo da deterioração econômica do setor.

“Fala-se muito que o produtor rural estaria se utilizando da recuperação judicial para ter um ganho financeiro. Quando vemos o risco da atividade, a frustração de receita, da safra, isso ganha respaldo no mundo jurídico. Em 2024, chegamos a 2.273 pedidos de RJ; se olhamos para o número, até parece que se está montando um golpe contra o sistema financeiro, mas não é, o universo de produtores é muito maior do que o número de pedidos. Se a atividade econômica está em risco, a ferramenta jurídica aparece como uma consequência, e não como causa”, disse Giuliano ao ND Mais.

Crise anunciada: números recordes de recuperação judicial

O ano de 2024 foi, em todos os setores da economia, o pior da série histórica de recuperações judiciais desde 2005 – ano de criação da lei –, com 2.273 requerimentos, superando o recorde de 2016. O volume representou alta de 61,8% em relação a 2023, segundo levantamento da Serasa Experian.

A empresa ainda contabilizou 1.272 pedidos de recuperação judicial no agronegócio em 2024, somando produtores individuais, pessoa física, os produtores empresariais, pessoa jurídica, e as empresas ligadas diretamente ao agro.

Pelo levantamento, os números praticamente explodiram no agronegócio. Os pedidos de recuperação judicial ligados ao setor passaram de 534 em 2023 para 1.272 em 2024, uma alta de 138%. Entre produtores rurais pessoa física, o salto foi ainda mais expressivo: de 127 solicitações em 2023 para 566 em 2024, uma variação próxima de 350%. Também entre as empresas ligadas ao agronegócio, o impacto foi sentido, com 297 pedidos em 2024 contra 245 no ano anterior, consolidando a escalada do uso do instrumento jurídico.

A explosão nas solicitações de recuperação judicial ao Judiciário evidencia o quadro de forte estresse no caixa do produtor rural, situação que não arrefeceu neste ano. Em 2025, os dados já disponíveis, apontam para a continuidade na aceleração da utilização da recuperação judicial pelo agronegócio.

No primeiro trimestre, o agro registrou 389 novas solicitações de recuperação judicial, aumento de 21,5% em relação ao trimestre imediatamente anterior e de 44,6% na comparação com igual período de 2024. No segundo trimestre, foram 565 pedidos, avanço de 31,7% em relação ao segundo trimestre de 2024, quando houve 429 requerimentos, marcando o maior patamar desde 2021.

Os setores mais afetados do agronegócio em 2025 incluem o processamento de agroderivados, como óleo e farelo de soja, açúcar, etanol e laticínios, além da agroindústria de transformação primária e do comércio atacadista de produtos agropecuários.

No mapa da crise, estados como Goiás, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná concentram boa parte dos casos, alguns dos principais polos de produção agrícola e pecuária no país.

No segmento sucroenergético, os levantamentos indicam que algo próximo de 24% das 446 usinas de álcool do país estão em recuperação judicial ou falência, em uma nova onda de dificuldades financeiras que atinge o setor desde 2024.

Fonte: ND Mais

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