Maiores empresas do país alertam governo sobre o risco de ampliação da contaminação da economia formal pelas facções criminosas
Empresários alertam para avanço do crime organizado na economia e risco de o Brasil “virar um México”Foto: Divulgação/Agência Brasil
Os maiores empresários brasileiros estão preocupados com a crescente participação do crime organizado pelo PCC e outras facções na economia formal e alertam que, se nada for feito, o Brasil pode se tornar “um México”. No país latino, os cartéis de drogas controlam uma infinidade de empresas legalizadas e já é, segundo estudos, o quinto maior empregador naquele país.
“Ou a gente reage agora, ou vamos acabar como os nossos colegas mexicanos, onde o crime organizado está fora de controle. Toda minha empatia aos nossos amigos do México, mas eu não gostaria que terminássemos da mesma forma que eles”, afirmou Pablo Cesário, presidente da Abrasca (Associação Brasileira das Companhias Abertas) — entidade que reúne gigantes como Vale, Petrobras, Gerdau, JBS, Embraer, WEG e outras centenas de grandes companhias brasileiras.
Cesário ressaltou ainda que o PCC e outras facções criminosas estão ampliando sua influência, tanto no Parlamento quanto no mercado.
“Eles estão adquirindo capacidade institucional para criar organizações complexas e movimentar grandes quantias de dinheiro. Eu, como membro do mercado de capitais, digo: é assustador o nível de inserção que essas pessoas alcançaram dentro do mercado formal — e elas estavam do nosso lado”, afirmou o dirigente empresarial.
O diagnóstico das grandes empresas é que hoje o crime organizado está presente em praticamente todos os setores da economia nacional.
“Essa gente está ganhando poder e espaço. Antes se dizia que eles eram mais influentes em um setor ou outro, mas hoje, infelizmente, isso não é mais verdade. Agora é mais fácil dizer onde eles não estão — e podemos contar nos dedos”, disse Cesário.
A declaração foi feita durante um jantar da Frente Parlamentar pelo Brasil Competitivo, em Brasília, na última terça-feira (21), que discutia a aprovação de um projeto de lei apoiado pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A proposta busca combater o devedor contumaz, ou seja, empresas abertas que deixam de pagar impostos e depois encerram as atividades — prática comum nas operações de lavagem de dinheiro do crime organizado.
Pablo Cesário, presidente executivo da Abrasca: “Ou a gente reage agora, ou vamos acabar como os nossos colegas mexicanos, onde o crime organizado está fora de controle”Foto: Abrasca/reprodução/ND Mais
“Se não houver uma coalizão para proteger quem faz o certo, quem age corretamente vai desaparecer. Em um ambiente de alta violência e insegurança não há prosperidade. A concorrência deixa de ser de quem trabalha mais para ser de quem é mais ousado — e isso nós temos pouco, pois somos gente que costuma trabalhar”, afirmou Cesário.
O dirigente também destacou que o mercado sempre tratou o problema como um custo, mas que isso não é mais possível. Ele lembrou de um caso em que terminais portuários nacionais ficaram sem acesso à internet depois que facções determinaram que seriam as únicas responsáveis pela conexão naqueles territórios.
Segundo ele, a situação agora é de sobrevivência, e a sociedade está concedendo mais poder ao Estado para reagir ao avanço do crime.
“Essa discussão é mais do que um pedido por concorrência justa; o que pedimos mesmo é a proteção do Estado. Estamos em um momento em que a sociedade está dando dentes ao Estado, porque há uma ameaça maior. Em geral, o Estado precisa ser controlado — aqui, não. Estamos abrindo mão e dando mais poder ao Estado para agir com firmeza contra as pessoas certas, pois estamos perecendo”, concluiu o representante do mercado de capitais.
Fonte: ND Mais